Cláudio Lembo


SIMPLICIDADE VERBAL: PRODUTO DA DEMOCRACIA

Nas livrarias, nos dias de hoje, encontram-se dezenas de livros procurando entender o momento político nos diversos países ocidentais.

Afligem-se com o que chamam de onda populista. Acreditam que a democracia corre riscos.

Falham em suas análises. Esquecem o fundamental.

A democracia permite a presença de todos os segmentos sociais nos escaninhos do Poder.

Não são os iluminados dos gabinetes que atingem os postos do comando.

Ao contrário, por meio do voto, os mais vinculados aos valores médios da sociedade, vencem e assumem o mando.

A linguagem simples e direta, compreendida por qualquer do povo, é arma utilizada.

Ora, se falar de maneira corriqueira e trivial deve ser considerado populismo, devemos admitir que ser populista fala a linguagem popular.

Ou seja, o falar cotidiano do povo. Isto é ótimo.

A linguagem rebuscada e acadêmica deve permanecer em ambientes fechados.

A sociedade arejada quer conhecer o que pensam seus líderes.

Deseja captar a linguagem dos dirigentes, que deve ser simples e direta.

Tolice dizer-se que a democracia corre perigo.

O regime democrático permite a presença dos mais diversos setores da sociedade no poder.

É o que acontece por toda a parte onde se instalou a democracia.

Por meio de pleitos diretos, são escolhidos os que possuem maior amalgama com o eleitor.

É elitista e falsa a argumentação em sentido contrária.

Ela vem integrada por um ranço aristocrático superado.

Não corre risco a democracia.

Correm perigo as mentes malsãs.

Estas vêm fragilidades em toda participação espontânea dos políticos.

Falar a linguagem do cotidiano não é pejorativo.

Ao contrário, demonstra que a democracia atingiu todas as áreas.

Bom que a linguagem, torna-se compreensiva a todos os eleitores.

Já não há espaço para os velhos discursos lidos e redigidos por assessores.

A democracia contemporânea exige vinculação direta e imediata entre o político e a sociedade.

Os livros críticos ao atual momento político são muitos. Merecem ser lidos.

Porém, o leitor atento constatará que a origem é a academia.

Esta nem sempre conta com sabor popular.

Os acadêmicos vivem em suas torres de marfim.

Esquecem os grotões que formam as mais diversas sociedades.

Ouça-se os políticos dos mais diversos partidos e se perceberá, de pronto, quem tem ligação verbal com os interlocutores.

A linguagem rebuscada, avoenga, ficou para o passado.

No presente, venceu a democracia e esta exige simplicidade em atos e palavras.


JUDICIÁRIO, SOB CENSURA

Antonio Vicente Mendes Maciel, Antonio Conselheiro, vítima do arbítrio judicial?

 

 

Os tempos não são favoráveis ao Judiciário.

Todos os dias surgem fatos desabonadores sobre a conduta de magistrados.

Antes figuras consideradas intocáveis, tornaram-se objeto de críticas do vulgo.

Qualquer do povo observa e censura os hábitos e atitudes de muitos juízes.

Já disse alguém que a magistratura é o último reduto dos costumes aristocráticos.

As aristocracias feneceram por toda a parte e onde ainda permanecem merecem censuras como todos os demais segmentos sociais.

Neste clima de suspeita e aleivosias, aqui e ali, surgem novas revelações sobre atos impróprios praticados por juízes.

Liminares estranhas são concedidas e, passados dias, revogadas, gerando intranquilidade e custos para particulares e máquina administrativa.

Neste cenário, insere-se artigo publicado em jornal de Salvador.

Aponta a matéria algo extremamente grave.

Dá como origem do massacre de Canudos decisões judiciais tomadas por vingança.

Afirma mencionado artigo que, em 1896, o juiz baiano Arlindo Leoni, inimigo de Antonio Conselheiro, agiu arbitrariamente contra os habitantes de Canudos.

Estes estavam terminando a construção da Igreja de Belo Monte.

Adquiriram, em Juazeiro, madeiras para elaborarem o telhado do templo.

Leoni, o juiz, desafeto de Antonio Conselheiro, pressionou o madeireiro, que já havia recebido o valor da venda, a não entregar a mercadoria.

Foi além.

Afirmou que os moradores de Canudos desejavam invadir à cidade para receberem a madeira adquirida.

Oficiou o governador da Bahia solicitando força policial. Este negou o envio de tropa.

Leoni insistiu.

Nesta segunda investida atingiu seus objetivos.

Militares foram enviados.

Começaram as lutas contra os moradores de Canudos.

O final todos conhecem.

Um genocídio foi praticado pela República recém proclamada.

Aponta-se, pois, motivo ardiloso para se iniciar a Guerra de Canudos.

A origem da tragédia, portanto, teria causa no Poder Judiciário.

É tema relevante.

Merece análise por parte dos historiadores.

 

 

Referências.

Artigo de Alcir Santos

Alcir santos.br@gmail.com

Jornal A Tarde, Salvador, 10. 1. 2020, Secção: Opinião, página A2


A ILHA DA GRANDE CASA DE LOUCOS

Venid, se amos locos todos juntos*

 

Conta o historiador Christopher Hill que, no Século XVII,  inúmeras pessoas, na Inglaterra, fingiam sofrer de alguma deficiência mental.

Tornara-se costume interná-las em um manicômio em Bedlam.

Apesar do uso da internação dos lunáticos em hospício, o número destes mostrava-se imenso.

Nas estradas e bosques do país, perambulavam pessoas que se punham a falar coisas extravagantes.

Previam o futuro.

Expunham os erros dos magistrados e dirigentes públicos.

Lembra ainda o historiador que, agindo como dementes, os bufões da Corte diziam aos soberanos verdades proibidas às pessoas comuns.

Agiam os bufões como verdadeiros conselheiros dos reis e rainhas.

Conclui o historiador que, quando os bufões foram afastados, os equívocos dos dirigentes tornaram-se maiores.

Não havia quem censurasse os equívocos.

Uma surpreendente afirmação expende o historiador inglês:

Muitos fingiam-se de loucos.

Assim podiam expor ideias políticas de oposição aos governantes.

Estas censuras, exposta por pessoas normais, seriam objeto de severas penas.

Dai os mais sagazes fingirem-se de loucos para livremente exporem, nas praças e nos templos, discursos proibidos aos considerados normais.

Assim, a demência, na Inglaterra do Século XVII, tornou-se em veículo político.

Criou espaço para novas concepções religiosas e, inclusive, governamentais.

Oportuno lembrar que todos estes episódios se verificaram como antecedentes da Gloriosa Revolução Inglesa.

Ridículo e escarnio, fazer papel de louco, foram considerados, naqueles tempos, dos melhores instrumentos para polemizar.

As constatações elaboradas pelo historiador conduzem, sem maior esforço, a uma comparação inevitável.

Estaremos, no Brasil, também utilizando a prática avoenga dos ingleses na ação política?

Ou seja, muitos se fazem de loucos para poder agir e expor as mais estranhas colocações.

Terá se tornando o Brasil, como a velha Inglaterra, em uma grande casa de loucos.

É possível.

Para aquilatar esta possibilidade, basta ler um jornal ou assistir um noticiário de televisão.

Os bufões de todas as espécies estão presentes.

Falam tolices sem qualquer censura.

Fazem-se de loucos.

Como diria o homem do Eclesiastes:

Não há nada de novo debaixo do sol.

O Brasil do Século XXI emita os ingleses do Setecentos.

Temos falsos loucos a toda prova.

 

 

Referencia.

Hill, Christopher – El mundo transtornado – Siglo XXI – Espanha – 1983

*W.Erbery in obra citada


COMO CONHECER UM POPULISTA

Yo ya no soy, yo soy un pueblo.*

 

 

Uma dificuldade para os cientistas políticos:

identificar com clareza um populista.

Todos sabem ser o populista um demagogo.

Com palavras, busca conquistar simpatizantes e solapar instituições.

Os populistas mostram-se endêmicos na América Latina.

No entanto, a partir deste Século XXI, tornaram-se presentes por toda a parte.

Onde existem instituições democráticas, eles se apresentam aos pleitos.

Com suas arengas, conquistam votos.

Depois, todos sabem o que acontece.

Agarram-se ao Poder.

Avançam por todos os espaços.

O tema – populismo – tornou-se recorrente na literatura especializada.

Colocou-se como objeto de análise em trabalhos acadêmicos.

Um autor mexicano, Enrique Krauze, em cuidadoso texto, se deu ao trabalho de arrolar o

Decálogo do Populismo.

Pela contemporaneidade e cuidado na elaboração, o mencionado Decálogo merece ser difundido.

É o que se faz, a seguir:

 

Decálogo do populismo.

1. O populismo exalta o líder carismático.

2. O populista usa e abusa da palavra: se apodera dela.

3. O populismo fabrica a verdade.

4. O populista, em sua variante latino americana, utiliza do modo discricionário os fundos públicos.

5. O populista, uma vez mais em sua variante latino americana, reparte diretamente a riqueza.

6. O populista promove o ódio de classes.

7. O populista mobiliza permanentemente os grupos sociais.

8. O populismo busca um “inimigo exterior”.

9. O populismo despreza a ordem legal. 

10.O populismo mina, domina e por último domestica ou cancela as instituições e liberdades democráticas.

 

Alterações, observações e acréscimos podem ser feitas às dez regras formuladas acima.

Certamente, porém, elas permitirão uma oportuna reflexão sobre o tema.

Ele está presente por toda a parte.

Não há sociedade imune à corrosão populista.

O Brasil não se encontra imune.

 

 

 

Referências.

Krauze, Enrique – El Pueblo soy yo – Debate – Mexico – 2018.

*Hugo Chávez

 

 

 


A ALMA CHILENA

 

 

Supo que las primeiras gentes de la Tierra habian bajado del cielo, y conocían el lenguage de los animales, los arboles, el viento y las aguas …*

 

Os recentes episódios populares verificados no Chile mereceram as mais variadas analises pelos observadores.

A maioria culpou o neoliberalismo aplicado pelos governos daquele País, após a queda de Allende, o presidente adepto de visões a esquerda.

É verdade.

As diferenças sociais tornaram-se flagrantes na sociedade chilena.

Os “sem teto”ocupam espaços nos parques de Santiago e demais cidades.

A miséria extrema é visível nos arredores dos centros urbanos.

Só não viam a realidade os ocupantes do Palácio de La Moneda, sede do governo do Chile.

Realmente, o custo de vida tornou-se asfixiante no País andino.

Tudo muito elevado.

Da alimentação aos serviços básicos de subsistência.

A má distribuição da riqueza criou polos geradores de animosidade.

Os partidos políticos desgastados.

As figuras públicas enfraquecidas.

A Corte Constitucional conflitando com  tribunais inferiores por questões meramente formais.

Enquanto nos altos escalões desfilam tolas questões, o povo dana-se nos desvãos da cordilheira andina.

Fácil , pois, captar as causas próximas da chegada de milhões de pessoas às ruas e avenidas das cidades chilenas.

O desconforto causado por causas econômicas.

Há, no entanto, um causa remota nos acontecimentos.

Esta não foi objeto de análise pelos observadores.

O Chile conta com um contingente populacional irridente.

Jamais se entregou aos conquistadores espanhóis.

Sempre os combateu.

Estes lutadores indômitos permanecem no espirito profundo do povo chileno.

Trata-se dos mapuches.

Habitantes do sul do Continente mantiveram sua tempera através dos tempos.

Lutaram pela preservação de seus costumes.

Não suportaram jamais o jugo dos conquistadores.

Os mapuches são a alma chilena “mestiza”.

Indômita.

Nas multidões presentes nas vias públicas de todas as cidades chilenas, aqui e ali, viam-se bandeiras Walmapu.

Tremulavam junto com as bandeiras oficiais do Chile.

Indicavam a alma profunda do povo presente.

Registram os historiadores grandes manifestações populares ocorridas na História do Chile.

Apontam os anos de 1888, 1905, 1949, 1957 e 1988 como datas destes acontecimentos.

Em todos eles, o espirito mapuche esteve presente.

Vieram do Arauco, lá das bandas do sul.

Estenderam sua tempera por toda a parte.

Possuem a luta como rito de vida.

Não se dobram.

Por vezes, parecem adormecidos.

De repente, surpreendem os dominadores e demonstram sua força invulgar.

Como narra a história avoenga:

“ los españoles vestidos d índios y los índios vestidos de españoles, estos, sujetos y esclavos, obedecendo a los índios, como a sus señores y los índios mandando como amo y dueños”

Repetiu-se a história.

O governo – leia-se Sebastián Piñera – perdeu os atributos solenes.

O povo, nas ruas, assumiu as funções superiores.

Os mapuches presentes.

A soberania popular, em sua essência, apresentou-se.

Graças as melhores tradições mapuches.

Os indomáveis.

 

 

 

Referências.

Bengoa, José – Historia de los antigos mapuchesdelsur – Catalonia – 2007 – Santiago

Baeza, Rafael Sagredo – Historia Mínima de Chile – El Colegio de Mexico – 2014 – Mexico

La Tercera – 26 de outubro de 2019- Santiago

*Chao Kalfu – O senhor de cor azul – Lenda mapuche


AS DUAS AMÉRICAS

O mexicano Enrique Krauze, em estudo analítico, aborda obra de Richard M. Morse, estudioso norte americano.

Morse realizou relevante análise para a compreensão das duas Américas.

Fala-se da América anglo saxônica e da nossa América, dita latina.

O estudioso, para procurar entender as duas Américas, parte dos respectivos pressupostos filosóficos.

Vai à filosofia dos fundadores das duas sociedades.

Aponta o norte americano:

Os Estados Unidos contaram, como fundadores de seu pensamento, duas figuras clássicas inglesas.

A saber,

  • John Locke (1632-1704) e

  • Thomas Hobbes (1558-1679).

Do primeiro herdaram o individualismo e do segundo a ideia do estado onipresente.

Da soma de ambas vertentes, construíram os povos da América anglo saxônica sociedade obreira, mas nem sempre cordial.

Os latinos tomaram, particularmente no ramo hispânico, os pensadores da Escola de Salamanca.

Cita-se, como integrantes maiores dessa escola:

  • Francisco de Vitória (1483-1546),

  • Domingo de Soto (1494-1560),

  • Melchor Cano (1509-1560),

  • Juan de Mariana (1536-1624) e

  • Francisco Suarez (1548-1617).

O que possuíam em comum estes mestres espanhóis?

Todos eram tomistas, seguidores de Santo Tomás de Aquino (1224-1274), e, portanto, dos preceitos contidos na Summa theológiae. 

Elaboraram teorias altamente qualificadas no cenário político.

Construíram o conceito de soberania popular, a que pertence ao povo e só ele é titular.

Por delegação, segundo os autores citados, o povo transfere sua soberania ao monarca.

Este passa, então, a ser titular do poder.

Deve, no uso deste mesmo poder, praticar o bem comum.

Forma-se, então, na sociedade uma pirâmide hierarquizada em camadas sociais e de núcleos satélites de poder, próprios do feudalismo.

Segundo Santo Tomas, qualquer comunidade organizada em sistema político, que respeita a dignidade humana, implica que Deus está presente.

Consequentemente, esta comunidade não pode ser atacada e nem excluída.

Esta sociedade monolítica permaneceu intacta por mais de trezentos anos.

Só se rompeu pela prisão do rei da Espanha, Fernando VII, pelas tropas napoleônicas.

Deste acontecimento, eclodem, na América espanhola, movimentos independentistas.

Paradoxalmente, segundo Morse, nesta ocasião emerge o pensamento do italiano Maquiavel,na figura dos vários caudilhos.

Os caudilhos utilizavam a artimanha e o carisma para se manterem.

No entanto, não romperam a sociedade de modelo tomista erguida pelos antepassados.

Desta soma de linhas de pensamento, aponta Morse a ausência de desenvolvimento social e econômico na América espanhola.

Vivem os hispano americanos – incluem-se aqui os brasileiros – em constante confronto entre os valores morais do tomismo cristão e as práticas maquiavélicas de dominação.

Dai decorre a natureza predominante do Estado sobre o individuo.

A peculiar subordinação do povo ao dirigente.

A atitude displicente perante a lei escrita pelos homens.

A lógica justiceira das insurreições, rebeliões e revoluções.

O papel do titular do Poder como eixo e promotor de energia social.

Falta aos latino americanos a força individual.

A vontade pessoal.

Dependem sempre da autoridade maior, desde suas origens.

A obra de Morse, conforme o estudo de Krause, é complexa.

Leva a indagações relevantes.

Explica, a partir de suas premissas, as diferenças entre os dois hemisférios americanos.

Um, economicamente desenvolvido, e o outro secularmente engatinhando.

Resta um consolo.

O latino americano é titular da convivialidade, ou seja, a arte de conviver.

Será?

É possível, comparados os hábitos latinos com as rudes formas de convívio de outros povos.

 

 

 

Referências.

Krauze, Enrique – El Pueblo soy yo – Penguin Random House – Mexico – 2018.

Morse, Richard M.    El espejo de Próspero – um estudo de la dialéctica del Nuevo Mundo – México – Siglo XXI Editores – 1982.