Arquivos Mensais: julho 2018


FARSAS

“Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”.

 

 

O texto constitucional é claro.

A realidade política obscura.

A Constituição, no parágrafo primeiro do seu artigo 1º, é precisa:

A cidadania é titular do poder e o exercerá diretamente.

Não acontece.

Raramente, os brasileiros são chamados para e dizer o que querem.

Há temor pela democracia direta entre nossos políticos.

Temem à verdade.

Dois presidentes da República foram objeto de impeachment – ou juízo político – nestes últimos trinta anos.

Grupos parlamentares se reuniram.

Fizeram conchavos.

Afastaram mandatários eleitos pelo voto popular.

Titulares legítimos do poder, eleitos pelo voto da cidadania.

Não foram, contudo, ouvidos os eleitores.

Falha gritante das práticas políticas brasileiras.

Os representantes, meros titulares transitórios da vontade popular, tornaram-se usurpadores.

O impeachment é a revogação de mandato conferido pela cidadania.

Só a esta, pois, cabe retirar o cargo concedido por sua vontade.

Só quem confere pode revogar mandato.

O princípio vale para esfera privada e para a pública.

Os atos praticados pelos parlamentares – senadores e deputados federais – nos impeachment ocorridos, após 1980, são ilegítimos.

Agridem a pureza democrática.

Democracias devem ouvir, nestes casos, quem ofereceu o mandato: o eleitorado.

O referendo é indispensável.

Se não acontecer, o regime  não pode ser considerado verdadeira democracia.

São meros simulacros de democracia.

No Brasil, praticou-se típica farsa ao se afastar presidentes sem ouvir os eleitores.

A Constituição prevê a democracia direta em seu preâmbulo.

Não utilizá-la é violência contra à cidadania.

É cinismo.

Farsa.


MUDAR É PRECISO

Aproxima-se a data das eleições deste ano.

O desencanto é geral.

Poucas vezes, um pleito eleitoral foi aguardado com tão baixa vibração.

Os motivos se multiplicam.

A classe política entrou em decomposição.

Suas lideranças, com raras exceções, se encontram envolvidas em atos de corrupção.

Os partidos políticos já não representam segmentos do pensamento político.

São meras siglas de amealhadores de vantagens financeiras.

Contam com um único objetivo:

Obter maior parcela do fundo público de financiamento.

Tempo de televisão.

Os interesses sociais não importam.

Vale a ganância das oligarquias partidárias.

No passado, já se falou na Lei de Bronze dos partidos.

Esta indica que, com o passar do tempo, grupos dominam o vértice das agremiações.

Tornam-se imutáveis.

Usam os partidos como atividade lucrativa.

Pouco importam as reivindicações populares.

Nada valem os anseios sociais.

Política é negócio. Não atividade pública.

Os assuntos partidários atingiram um grau de indigência moral sem precedentes em nossa História.

Nenhuma grandeza. Nenhum destemor. Sequer um lampejo de respeitabilidade.

Estas observações valem para as agremiações de todos os espectros de pensamento.

Direita, centro e esquerda se equivalem.

As democracias em toda a parte se encontram em crise.

Esta crise tem como ponto central os partidos políticos.

Degeneraram.

Torna-se necessário criar a possibilidade da candidaturas independentes.

Distantes dos monopólio das cúpulas partidárias.

Estas poderiam gerar novas lideranças.

Livres, independentes, autônomas.

Agentes de novas formas de pensar serão úteis no interior da pasmaceira política em que nos encontramos.

Isto só é possível com a liberdade individual levada a extremos.

No interior dos partidos, não se concebe nada novo.

A busca de vantagens pessoais supera o coletivo.

São necessárias novas experiências, se a vontade for preservar à democracia.

Os países que adotaram candidaturas independentes viram rompidas, pelo voto, velhas oligarquias.

Veja-se o exemplo do México.

As candidaturas independentes poderão ser o embrião de novas agremiações.

Preservar o atual quadro, aponta para  dias ainda mais amargos que os atuais.

O resultado do próximo pleito se anuncia.

As mais estapafúrdias alianças se concretizam.

Os eleitos serão os de sempre.

O mais do mesmo.

Uma lástima.

É desconcertante.

 


LIÇÃO PERMANENTE

Em 1930, ano de grandes agitações políticas, Oliveira Vianna escreveu prefácio a seu livro,Problemas de Política Objetiva, digno de ser recordado.

Particularmente, em tempos de desesperança e de “sábios” expondo as mais diversas teorias políticas ou econômicas.

Alguns – os de sempre – pensam saber tudo sobre a nossa sociedade.

Escrevem artigos ou dão entrevistas que são sempre o mais do mesmo.

Os meios de comunicação, por estas bandas, só se interessam por quem tem boa assessoria.

Valem mais os “release” requentados às ideias novas ou repletas de simplicidade, onde aparecem as verdades ou experiências vividas.

Volta-se ao prefácio de Oliveira Vianna.

O sociólogo – este verdadeiramente digno do título – aponta para  exemplo de nossa História repleto de significação.

Quando da malfadada Guerra do Paraguai, um contingente militar brasileiro, altamente qualificado e  melhor aparelhado dirigiu-se aos pantanais de Mato Grosso.

Seria um avanço decisivo no cenário bélico.

Ao contrário, deu origem a dramática fuga, a conhecida por retirada de Laguna.

Quem salvou, o que restou da tropa militar, foi um simples tropeiro, analfabeto, porém sábio.

Conduziu os soldados pelas veredas húmidas da região.

Ensinou práticas de alimentação a uma tropa carente de intendência à altura das necessidades.

O guia Lopes é esta figura emblemática da realidade brasileira.

Salvou parte da tropa.

Ensinou a letrados das escolas militares o que era o verdadeiro Brasil.

Oliveira Vianna, com o episódio, procurou demonstrar algo elementar:

As pessoas simples tem muito a ensinar aos sábios do Rio de Janeiro, Brasília, São Paulo e outros centros considerados de excelência.

Os habitantes das cidades grandes pensam saber tudo e, no entanto, a realidade brasileira é mais complexa do que imaginam.

Frequentam as universidades estrangeiras estes urbanoides.

Esquecem os valores e realidades nativos.

Só fazem tolices.

Veja-se o episódio que deu origem a parada dos caminhões no primeiro semestre deste ano.

Um gênio, do alto de seu pedestal, lá no Rio de Janeiro, esqueceu a existência do Brasil real.

Deu no que deu.

Tumultuou a pouca eficiência da economia nacional.

Oliveira Vianna tinha razão.

O Brasil precisaria ouvir um pouco mais seus guias Lopes.

Teria muito o que aprender.

Muita tolice seria evitada.

 

 

 

 

Referências.

Oliveira Vianna – Problemas de Política Objetiva – Record Cultural – 3a. Edição – Rio de Janeiro.

A retirada de Laguna – Visconde de Taunay – Typographia Americana – Rio de Janeiro – 1874 (https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/4870)