Arquivos Mensais: fevereiro 2017


MEIA VOLTA, VOLVER!

 

 Não te metas em questões republicanas, por quanto República no Brasil é desgraça completa …

Deodoro da Fonseca*

 

 

 

Há temas que não merecem atenção.

Por desídia ou por malícia.

Como o avestruz da estória, as pessoas escondem a cabeça para não ver a realidade que as cercam.

É lamentável.

Pautam-se determinados assuntos e estes se mantém ad nauseam nos noticiários.

A Lava Jato – ninguém nega sua importância – diariamente é objeto de manchetes.

Parece não existirem outros acontecimentos para  registro e análise.

Examinemos:

De meses para cá, os governadores de alguns Estados, incompetentes no exercício de suas atribuições, buscaram um artifício para fugir de suas responsabilidades.

Toda vez que explodem rebeliões, em presídios mal dirigidos, ficam aturdidos e, de pronto, solicitam ao Governo Federal o envio da Força Nacional.

Até ai, tudo errado, mas dentro do esquema logístico criado, em governo passado, para avançar sobre a competência dos Estados federados.

Havia, por parte do governo central de então, uma quase imposição para que os governos locais aceitassem a referida Força Nacional.

Só governadores, decididos e alheios à falsa popularidade, rejeitavam firmemente o ingresso de força federal em seus territórios.

Esta posição, porém, passou a ser a exceção.

Agora, tornou-se  usual a presença de governadores,  de joelhos, em Brasília atuando em favor do aniquilamento do que resta da Federação.

Ou mais precisamente, requerendo intervenção federal branca em seus Estados.

Se a Força Nacional, vulgarizada, tornou-se tropa constante em várias latitudes, pior vem ocorrendo no presente.

Quando se veem acuados pela incapacidade de comandar as suas forças policiais, os governadores passaram a recorrer às Forças Armadas.

Estas, de acordo com a Constituição, possuem uma finalidade específica e nobre:

A defesa da Pátria, como registra o artigo 142 da Constituição de 1988.

Pela importância das Forças Armadas,estas são consideradas constitucionalmente instituições permanentes, desde a proclamação da República.**

Para a preservação da segurança pública, a mesma Constituição indica os agentes destinados a este objetivo, a saber:

Polícia federal,

Polícia rodoviária federal,

Polícia ferroviária federal,

Polícias civis,

Polícias militares, corpos de bombeiros militares e

Guardas municipais, quando constituídas.

Estes os organismo que devem preservar a ordem e a paz na comunidade interna.

Chamar as Forças Armados – Marinha, Exército e Aeronáutica – a todo o momento, para atividades de rotina policial é macular as tradições e valores das Armas.

No passo que as coisas caminham, há o risco das Forças Armadas, as quais tanto deve a nacionalidade, se transformarem em mera polícia entre as arroladas no artigo 144 da Constituição.

Não se quer que isto venha acontecer.

Já é tempo de dizer um basta às solicitações abusivas dos governadores de alguns Estados.

Preserva a grandeza das Armas é dever patriótico dos bem intencionados.

Os maus governadores – aqueles que perdem o controle de suas polícias estaduais – precisam  responder pela própria irresponsabilidade.

Aguarda-se do Ministério Público, dos Partidos Políticos e da cidadania que ajam, neste caso, com o rigor que as circunstâncias exigem.

Das autoridades federais, espera-se que repassem o custo das operações militares a cada Estado federado que solicitou a intervenção.

Aos Comandantes das três armas um apelo  patriótico:

Cautela com maus governantes.

Eles violam os princípios da boa administração.

Depois lançam o ônus da própria incompetência sobre quem tem respeitabilidade: as Forças Armadas.

Isto é inaceitável.

 

 

* SENA.Ernesto. Deodoro: Subsídios para a História. Senado Federal. Brasília – 1999.

** BARBALHO. João. Comentários a Constituição Federal Brazileira. Typographia da Companhia Litho-Typographica. Rio de Janeiro – 1902.


CIDADE ENFERMA

… tudo que é gerado  se corrompe …

Averrois*

 

 

 

 

Quatrocentos anos antes de nossa Era, as preocupações externadas por Platão aplicam-se ao nosso cotidiano.

O filósofo buscava as causas que levam a cidade à enfermidade.

Como se sabe, a cidade grega, no período clássico, a chamada polis, indicava o próprio Estado.

Como todo Estado, a polis sofria com as artimanhas do jogo político.

A este tema dedicou-se o filósofo em sua obra mais citada e divulgada: Políteia, traduzida para o latim, a partir de 1482, em Florença, sob o título de Res Publica.

Muito antes dos tempos modernos, Platão  identificou a origem primordial dos males da sociedade.

Afirmava o pensador que a pleonexia – o desejo de querer sempre mais, prevaricando sobre os demais e violando às leis – conduz a desenfreada busca de sucesso e de poder.

Nesta louca caminhada a única regra é a força.

Qualquer ilusória coesão social, neste caso, rompe-se.

Leva este estado doentio a uma constatação inevitável.

Surgem duas cidades, no interior da polis, inimigas entre si, identificadas como a cidade dos pobres e aquela dos ricos.

O confronto é inevitável.

A cidade torna-se enferma.

Só a cidade justa pode evitar esta situação desconfortável.

Como remédio para curar o mal da cidade enferma, Platão aponta os políticos (sic).

Em seguida, ele mesmo registra que estes são os cúmplices ou mesmo concausa da enfermidade.

Os políticos, segundo Sócrates, costumam ofertar banquetes, mas não se preocupam com a sabedoria e com a justiça.

Antes de agirem como médicos da cidade, os políticos, em último grau, são a causa dos males suportados pela cidade enferma.

Os políticos, no exercício do Poder, agem sempre de modo tirânico.

Para mudar a cidade, na busca de atingir uma boa cidade, é preciso primeiro mudar as pessoas.

Mais além.

Não permitir a confusão entre Poder e riqueza.

As lições de Platão aplicam-se com exatidão ao atual momento político nacional.

Confunde-se, diuturnamente, riqueza e Poder.

A riqueza, hoje disposta em várias áreas, dominou o jogo político, transformando os locais de debate de ideias em cassinos.

Nestes se colocam meramente interesses privados egoísticos.

Os rompimentos sociais surgidos em vários Estados federados apontam para uma polis enferma.

É nítida a divisão entre ricos e pobres.

São amargas as cenas registradas em Vitória, no Rio de Janeiro e em outras localidades.

Aterrorizante o interior dos presídios espalhados pelo território nacional.

Deplorável a imagem dos hospitais das múltiplas regiões geográficas.

Os políticos, com suas artimanhas, levaram o Estado à enfermidade.

Deveriam ser os médicos para salvar o doente.

Tornaram-se algozes.

Pouca esperança resta.

Entre nós, os vícios do Poder são muitos.

Desde Porto Seguro, lá em 1500.

Resta – a maneira de Platão – aguardar um governo de sábios.

Nos próximos quinhentos anos, quem sabe a purificação chegará.

Até lá, paciência.

 

 

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Referências:

VEGETTI, Mario. Quindici lesione su Platone. Ed. Piccola Biblioteca Einaudi.Torino – 2003.

VOLPI, Franco. Enciclopedia de Obras de Filosofía, volume II. Ed. Herder Editorial. Barcelona, 2a. Edicion– 2005.

*Averrois. Comentário sobre a “República”. Ed. Perspectiva. São Paulo – 2015.


AMARGA VERDADE

Fratelli, um tempo stesso, Amore e Morte**

 

 

Carl Schimitt, o culto e controvertido autor alemão, certa ocasião se dispôs a responder perguntas de um estudante a respeito do Poder.

O estimulante diálogo* oferece inúmeras passagens dignas de meditação.

Parte o pensador alemão, da célebre frase:

Homo homini homo.

Ou seja, o homem é um homem para o homem.

Ou ainda mais claramente:

O homem é o lobo do homem.

Isto quer dizer que o inimigo do homem é o próprio homem.

O pensamento aplica-se com exatidão ao atual momento político que se vive em nosso País.

As pessoas tornaram-se odientas umas com as outras, sem qualquer subterfúgio.

Sofrem agressões imerecidas a todo momento, mesmo que não possuam diretamente Poder.

Esta semana registrou-se o ponto final de amarga situação.

Foi suportada por uma dona de casa, esposa de um ex-presidente da República.

Uma mulher dedicada ao lar e, portanto, a cuidar dos afazer cotidianos de uma casa, em companhia de filhos, noras, netos e marido.

Dedicava-se ao amor familiar.

Tudo no velho estilo tradicional dos antigos lares, onde a mulher vivia no interior das famílias e a estas concedia o afeto feminino.

Nunca exerceu cargos públicos.

Sempre viveu à sombra do marido, algum tempo atrás, poderoso.

Esposa e mãe foi exposta de maneira agressiva e deformada à opinião pública.

Meros movimentos de uma mulher zelosa – preocupada com as coisas singelas do dia-a-dia – levaram-na a execração pública.

Sofreu tortura psicologia intensa.

Todos os dias sua imagem exposta sem qualquer respeito à sua integridade moral e a sua privacidade.

Poderá se afirmar que estes episódios são consequências de sua ação política indireta.

Mero argumento diversionista.

A imagem de uma pessoa foi violada com violência inaudita.

Agressivamente. Duramente. Inadmissivelmente.

Tudo que ocorreu, nestes últimos meses, com diversos  figurantes da cena pública ou de meros coadjuvantes aponta para algo errado.

Há limites para a exposição de pessoas pelos meios de comunicação eletrônica.

Já é tempo de conviver com o respeito exigido por todo o ser humano.

Será possível a condenação pública das pessoas, sem o devido processo legal?

Vale a divulgação deformada de notícias?

É admissível o uso da autoridade sem limites? De acordo com as visões meramente pessoais?

Uma democracia não prospera quando determinado setor da burocracia estatal quer se colocar em posição de superioridade.

Razão possui quem afirmou que todo Rosbespierre ingressa no Poder como numa jaula.

Torna-se prisioneiro de seus próprios instintos.

É o que acontece por parte de determinados segmentos da vida institucional do País.

Dominaram o corpo social. Fizeram  com que este perdesse sua organicidade.

A sociedade esta fenecendo.

Vai morrer, tal como as pessoas naturais.

Sem recíproco respeito é impossível conviver.

É questão óbvia.

* Diálogo sobre el poder y el acesso al poderoso.

Carl Schmitt

Fondo de Cultura Económica

Impresso na Argentina – 2010

**     Consalvo di Cordova

 Chi L’HaDetto ?

Editore UlricoHoepli

Milano – 10a. Edição – 1983