Arquivos Mensais: janeiro 2017


LUTERO, MUITOS ÂNGULOS

Lutero … el gran animador cultural de los alemanes.*

 

 

Donatella Di Cesare, docente de Filosofia da Universidade Sapienza de Roma, publicou livro repleto de temas para reflexões.

“Heidegger e gli ebrei” é o título da estimulante obra da professora italiana.

Ela tem um escopo específico:

A análise da obra de Heidegger e esmiuçar sua visão sobre os judeus.

Para atingir seu objetivo, a autora percorre inúmeras obras de pensadores alemães.

Analisa suas posições face aos judeus.

Constata, então, que a posição contrária aos hebreus se encontra inserida no pensamento dos mais acatados filósofos alemães.

É uma constante.

Quando Donatella Di Cesare chega a Lutero, recolhe um forte posicionamento contra os judeus.

Na região de Turíngia, onde vivia o reformador, os judeus já não se instalavam.

Foram expulsos sob o pretexto do  envenenamento das águas das fontes.

O tempo era milenarista.

A América fora descoberta e seus povos, uns após outros, segundo informações que chegavam à Europa, convertiam-se ao cristianismo.

Com a unanimidade cristã que se anunciava, esperava-se o fim do tempos.

Restavam os judeus.

Não se convertiam.

Lutero mostrava-se perplexo.

Desejava a conversão de toda a humanidade.

Escreveu, com este fim, em 1523, um documento convocando os judeus à conversão:

Jesus Cristo nasceu judeu.

Não obteve sucesso.

Revoltou-se.

Redigiu, neste passo, um panfleto cujo título indica seu conteúdo:

Dos hebreus e de suas mentiras.

Corria o ano de 1543.

Ainda inconformado com a não conversão dos judeus, prosseguiu o Reformador em sua caminhada.

Examinou as interpretações da Bíblia pelos sábios talmúdicos.

Nelas encontra o que atribuiu serem mentiras.

Não admitiu interpretações infinitamente abertas.

O pior equívoco dos judeus, segundo Lutero, seria a concepção de serem originários de uma estirpe superior.

Este pensamento, segundo Donatella, levou ao aparecimento do racismo.

O Reformador, revoltado com a não-conversão dos judeus, avançou por caminhos verbais tortuosos.

Estes, posteriormente, foram adotados pelos nazistas.

É bom recordar, como faz a professora da Sapienza, que em Nuremberg, em abril de 1946, Julius Strecher, editor do jornal nazista “Der Sturmer”, ao ser interrogado respondeu:

“O Doutor Martin Lutero deveria estar hoje no meu lugar”

Todas estas lembranças arroladas pela professora apontam para preocupantes constatações.

O pensamento dos mais eminentes autores sempre se encontra inserido no contexto cultural em que vivem.

As obras renomadas do pensamento humano precisam ser relativizadas a partir do contexto histórico em que foram produzidas.

Compreender que Lutero imaginava a reforma dos costumes religiosos em seus dois tempos, ou seja, os de ambos os Testamentos é relevante.

É, ainda, importante recolher as posições arroladas pela professora Donatella Di Cesare sobre os pensadores alemães em geral.

Mostram uma amarga coerência.

A fixação, porém, sob Lutero é oportuna.

Este ano se comemoram os quinhentos anos da edição das famosas 95 teses que iniciaram a Reforma Religiosa.

Elas deveriam alcançar, segundo o Reformador, todos os povos no interior da cristandade e além desta.

Lutero, figura central da História alemã, merece estudo sobre todos os ângulos, inclusive, portanto, naquele de sua visão a respeito dos judeus.

Nada pode ser esquecido.

Sua importância é relevante no pensamento ocidental.

Lutero é o moderno fautor da liberdade interior, gênio que plasmou a língua alemã, símbolo da identidade tedesca, como registra Donatella Di Cesare.

Seu pensamento alterou costumes e valores.

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Donatella Di Cesare

Heidegger e gliebrei

BollatiBoringhieri editore

Primeira reimpressão  dezembro  2014

*Hans Küng – El Cristianismo – Essencia e História

Editorial Trotta – Madrid – 1997

 

 


MÍDIA E REALIDADE

Congress shall make no law …

abriding the freedom of speech, or the press…

 

 

Interrogações invadem as mentes.

Episódios nativos e, com imensa intensidade, externos geram perplexidade.

O cotidiano nacional exaure-se em más notícias.

Rebeliões em presídios. Queda de aviões. Descalabros administrativos.

Em terras norte-americanas, assusta a presença de um presidente fora dos padrões do politicamente correto.

Como observadores, os meios de comunicação mostram-se perplexos.

Acostumados a passividade costumeira dos interlocutores, passam a ser contestados.

Desde sempre, os veículos de comunicação tiveram duas vertentes de comportamento.

Difundem os acontecimentos e oferecem a própria visão.

Esta deve ser recebida como um dogma.

Aos leitores, ouvintes ou telespectadores cabe,simplesmente, pois, receber a aparente verdade exposta pelo comunicador.

Ao indagado, na maioria das oportunidades, não se concede espaço para expor seu próprio pensamento.

Os conflitos, entre administradores públicos e veículos de comunicação, estende-se por muitos séculos.

Ou melhor, desde a invenção da arte de imprimir pelo velho Gutenberg.

O poeta John Milton mostrou-se pioneiro em defender a liberdade de informar.

Sua obra, Areopagítica, registra os conflitos entre o pensamento e sua expressão no curto período republicano na Inglaterra.

De maneira muito especial, nos Estados Unidos, o tema sempre esteve presente.

Adquiriu contornos especiais.

Estes contornos especiais derivaram-se da Emenda n. 1 da Constituição americana.

Cantado em verso e prosa, o artigo 1º da Emenda n.1 enfaticamente registra a liberdade de palavra ou de imprensa como valor fundamental.

Isto levou a uma situação paradoxal.

Ou governante – por inúmeras formas – torna-se bem querido pela mídia ou transforma-se no bode expiatório de todos os pecados.

Tem-se agora, porém, nos Estados Unidos, uma novidade.

O presidente empossado – Donald Trump – não  utiliza qualquer subterfúgio para conflitar com os meios de comunicação.

Sem intermediários, expõe suas opiniões sobre os diversos meios de comunicação.

Responde direta e rudemente perguntas de jornalistas.

É inusitado.

Quanto durará esta forma de comunicação do novo presidente americano?

Como esta maneira de agir será entendida eventualmente pelos tribunais em face a Emenda n.1?

Muita polêmica gerará o incomum comportamento de Trump.

É pouco provável que ele consiga alterar costumes e valores sedimentados na sociedade estadunidense.

O inevitável conflito que se anuncia terá repercussão por toda a parte.

Basta aguardar.

Aqui, nos trópicos,  a perplexidade toma corpo.

Tudo de mal acontece.

Avião particular mergulha na Baia de Paraty.

Ministro do Supremo Tribunal Federal morre.

O fato deve  merecer dos meios de comunicação  exemplar acompanhamento.

Todos os pormenores do acidente e suas motivações devem ser esmiuçadas e analisados.

Uma das onze personalidades mais importantes da República é engolida pelas águas oceânicas.

Muitas perguntas se colocam por parte da cidadania.

A vida e os costumes de um ministro influem sobe os costumes e a vida de milhões.

Mais acentuadamente quando o morto era figura central do maior escândalo de corrupção da República.

A má informação – ou ausência de análise das entrelinhas – causará grande prejuízo à respeitabilidade dos informantes.

Aguardam-se os próximo ciclos.

Aqui e lá nos Estados Unidos.

Prometem emoções.

Ou ainda maiores decepções.


RÉQUIEM PARA A JUSTIÇA

Questi tragici giorni che viviamo … è sicura garanzia de rinascita morale.

(Piero Calamandrei – Itália – 1943)

 

 

A crise vivenciada pelos brasileiros contém contornos de imensa gravidade.

Espalha-se pelos mais diversos segmentos da sociedade e, a partir de determinados episódios, a torna frágil, por impedir a sadia convivência.

Já não se fala dos horrores praticados nas prisões por alguns internos ou pelo próprio Estado.

Estes horrores são de tal gravidade que os meios de comunicação tiveram de apontá-los e comentá-los.

Apresentaram imagens e textos exibindo a falência das atividades estatais nos espaços prisionais.

A fragilização da imagem do Estado nacional, porém, não se limita a aspectos de pronto identificáveis, como a situação deplorável dos presídios.

Este movimento de depreciação da figura do Estado avança para todos os cenários.

Lutou-se – e muito – para se alcançar a plenitude do Estado de Direito, enfim a legalidade.

Ou seja, o pressuposto de que toda a cidadania – sem exceções – é regida pela lei e esta é igual para todos.

Quando se fere esta primordial condição,  viola-se toda uma admirável construção doutrinária.

Pior.

Fere-se a possibilidade de se conviver em segurança jurídica.

É o que acontece no Brasil.

As autoridades constituídas diariamente ferem a legalidade.

Afastam a prevalência da lei.

Abandone-se os dramáticos acontecimentos verificados nos presídios do Amazonas, Roraima e Rio Grande do Norte.

Deixe-se, por um momento, o horror das masmorras.

Gire-se os olhares para o interior dos palácios.

Neles, entre tapetes e obras de arte, sem qualquer pudor, a legalidade é publicamente violada.

Oficiais de Justiça procuram altas autoridades.

Apesar de sombras altamente significativas, elas se dizem ausentes.

Esquivam-se de cumprir ordens judiciais.

Estas poderiam oferecer aplicação equivocada ou má interpretação da lei.

Não importa.

Eram emanações da jurisdição, atividade essencial do Estado de Direito.

Daí se tornarem lamentáveis as fugas aos oficiais de Justiça por parte de figuras significativas da área pública.

Elas indicam  – estas fugas – explicitamente o nível de fragilidade em que se encontram as instituições.

Acham-se desautorizadas pelos detentores da obrigação de fazer cumprir as normas legais.

É a anomia social expressa de maneira preocupante.

Não se pode viver longe da legalidade.

Esta só prevalece quando a lei é respeitada e cumprida.

A marginalização da lei e o achincalhamento do Judiciário origina-se, pois, em grande espaço, pela atuação de autoridades do mais alto grau.

É lamentável.

Sem exemplo dos superiores, o que resta à cidadania?

Cada um responderá como lhe aprouver.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


A EXPLOSÃO POPULISTA

Após os dramas vividos durante e nos anos que antecederam à Segunda Guerra, um equilíbrio político instalou-se por todo o Ocidente.

A democracia venceu os totalitarismos e sua prática transformou-se em salutar hábito social.

Espalhou-se por várias partes e não encontrou a democracia contestações duradouras.

Tornou-se o regime escolhido pelos mais diversos povos e seus mecanismos mostraram-se capazes de solucionar as demandas populares.

Os Estados Unidos, tradicionalmente democrático, fez de seu regime de governo modelo para os demais Estados e suas sociedades.

Este fervor democrático estendeu-se pela Europa e permitiu o aparente afastamento dos excessos nacionalistas, por vezes, geradores de formas autoritárias de governo.

Os europeus, na busca de afastar os conflitos do passado, neste período, conceberam e implantaram a União Europeia.

Na América Latina, sempre dominada por oligarquias conservadoras, após a experiência dos regimes militares, a democracia tornou-se uma realidade formal.

Tudo parecia correr as maravilhas.

A racionalidade vencera o embate contra as emoções circunstanciais.

Ledo engano.

A crise financeira nos Estados Unidos e a evasão de capitais para outros países criou um ambiente sensível na sociedade americana.

A presença massiva de imigrantes, por todo o território norte-americano, gerou desconforto e desconfiança.

Na Europa, o fenômeno agravou-se.

A imigração deu-se a partir de pessoas oriundas de regiões de praticantes de religiões antagônicas às tradições cristãs do continente.

A par das ondas imigratórias originárias do Médio Oriente e África, as diferenças econômicas entre os vários Estados nacionais eclodiu.

Esta eclosão levou a forte descontentamento popular, especialmente na Europa meridional.

Aqui, na América Latina, o crescimento desordenado das cidades e concessões assistenciais conduziu a um clima de descontentamento entre segmentos sociais.

Em uma sociedade de conhecimento – acrescente-se – as massas latino-americanas não encontram espaço expressivo.

A pobreza e a consequente impossibilidade de alcançar bens de consumo levou a fortes frustações.

Os índices de criminalidade cresceram geometricamente.

O narcotráfico lançou seus tentáculos por todas as partes.

A partir destes novos componentes, surgiu um novo lumpenproletariado, que segundo Marx consiste na putrefação das camadas populares.

Estas sociedades – a norte-americana, a europeia e a latino-americana –frustradas por diferentes motivos, retornaram às velhas práticas populistas.

O populismo identifica-se como toda concessão demagógica ou popularesca feita por um político ou determinado grupo social.

Oferecem os populistas soluções inatingíveis e mobilizam ideário repleto de emoções.

Fascinam as massas sem deixar de servir as oligarquias.

Preferem o espetáculo à solução de problemas.

A explosão populista espalhou-se pelos mais diversos países.

Tornou-se mais presente em países que adotam o sistema multipartidário, como o Brasil.

Não se encontra ausente, porém, em sociedades com partidos políticos tradicionais e consolidados, como é o caso dos Estados Unidos.

Trump, Buchanan, a Frente Nacional, o Partido do Povo Dinamarquês, o Podemos, o Cinco Estrelas, o Syriza e muitos dos prefeitos brasileiros, eleitos no último pleito, colocam-se como populistas.

Agem a partir de bravatas.

Apresentam-se como grandes reformadores.

Muitas vezes marginalizam o já estabelecido.

Colocam-se contra a atividade política tradicional.

O populista é produto das massas enfermas, da frustração, da pobreza, da humilhação e desesperança das pessoas.

Olhe ao seu redor.

Examine o noticiário com atenção.

É bom exercício: encontrar populistas nativos ou de nível internacional.

Eles estão soltos por aí.