Arquivos diários: 31 de outubro de 2016


O HOLOCAUSTO DO SÉCULO XVI

Falemos hoje, amanhã morreremos. america-latina

Aproxima-se o dia 2 de novembro.

É da tradição dedicar esta data aos mortos.

Relembrar vidas passadas.

Existências longas ou estreitas no tempo.

É data de recordação.

Os costumes religiosos apontam para o Dia das Almas.

Dia dos Mortos ou Dia das Almas, pouco importa a denominação, é momento hábil para relembrar vidas e tempos passados.

Nesta América, herdeira aparente das tradições europeias, mostra-se desconfortável a comemoração, se nos dirigirmos às profundezas do tempo.

A história destas plagas foi escrita pelos colonizadores.

Registra os fatos a partir de uma única ótica: a dos conquistadores.

Seus feitos são apontados como heroicos.

Realizados em nome de uma crença.

Tudo se permitia àqueles  que chegaram a América.

Tudo se fazia sem pudor ou limites.

O Dia dos Mortos é ocasião oportuna para registrar o genocídio praticado pelos conquistadores.

Mataram, torturaram e humilharam os povos autóctones da América.

Um genocídio em níveis jamais praticados, até então, em qualquer parte.

Foram milhões de nativos violentados em seus costumes e mortos de maneira ignominiosa.

Apontam registro de época:  “la violência da la conquista había reducido a bestias a los índios”.

Assim foi.

Os donos das terras transformaram-se pela ação do conquistador em escravos ou servos de uma gleba que lhes pertencia.

Os espanhóis, particularmente, muniram-se de “cães  de guerra”.

Estes animais eram lançados sobre os nativos.

Cães de guerra “… bravos que los despedazavan e comian, … quemaban-lo en vivas llamas”

Assim foi a chamada conquista da América.

Nenhum amor ao próximo.

Apenas a ganância e uma violenta intenção de exterminar os  idolatras.

Criaram-se inúmeras formas de acalentar as consciências dos conquistadores.

Tomou-se o episódio bíblico de Sodoma e Gomorra para admitir as violências.

Foram além.

Os povos nativos sofriam com as doenças trazidas da Europa.

Sífilis, varíola e outras enfermidades.

Uma repetição das setes pragas do Egito.

Enquanto não se convertessem e abandonassem  suas antigas práticas religiosas mereciam  extermínio como ovelhas.

É o que professavam os predicadores.

Assim aconteceu.

Há autores que apontam uma cifra entre  78 a 95 por cento como a diminuição da população do México entre 1519-1595.

Percentuais que registram o tamanho do genocídio praticado no Século XVI no continente americano.

A historiografia oficial, escrita pelos colonizadores, proclama como gestas gloriosas os atos praticados.

Carece de honestidade.

A verdade é amarga.

Os europeus, no século das descobertas, produziram o maior genocídio da História.

Este, porém, permanece encoberto.

Oculto e, portanto, objeto de uma cínica censura.

Essencial, nesse dia 2 de novembro, recordar estes vergonhosos acontecimentos.

Os milhões de mortos pelos intrusos, destruidores de civilizações estabelecidas a séculos.

Os genocídios precisam sempre registro para que nunca mais se repitam.

É lamentável que a  Grande Mortandade do Século XVI seja objeto de tanto silêncio.

Covardia dos historiadores?

Escusas ações de crenças dominantes?

A prática gerada no Século XX e persistente neste Século XXI de negação da morte?

São perguntas a exigir respostas.

Ou tudo que vem do passado é um intruso?*

 

 

 

Para uma leitura profunda do tema: Cláudio Lomnitz– Idea de la Muerte em México – Fondo de Cultura Económica – México – 2006

* Gustavo Zagrebelsky – SenzaAdulti – GiuloEinaudi editore – Torino – 2016