Arquivos Mensais: julho 2014


A HISTÓRIA POUCO IMPORTA

Os demais latino-americanos têm muito a ensinar aos brasileiros, especialmente no que diz respeito aos registros históricos. Em todas as partes do continente, há uma positiva vibração patriótica.

 

Percorrer as cidades da América de fala espanhola gera uma inevitável vontade de comparar realidades. São tão iguais e tão diferentes os americanos de voz espanhola e os de voz portuguesa.

 

A primeira constatação é da presença, na América espanhola, de monumentos comemorativos dos feitos históricos dos seus povos por todas as praças e sítios.

 

Nada e ninguém é esquecido. O bronze registra momentos heróicos ou situações de dor ou alegria. O mais impressionante. Estes documentos são conservados com respeito e dedicação.

 

Há, por parte da comunidade, um positivo reconhecimento da importância destes registros cívicos ou religiosos. Se os monumentos são bem cuidados, ainda mais são os locais de considerados relevantes.

 

Os museus apontam para os grandes figurantes das diversas etapas da História de cada país. São bem cuidados e funcionários expõem o conteúdo das amostras.

 

Tudo bem diferente na América portuguesa representada pelo Brasil. Por aqui, os museus nem sempre são bem preservados e os monumentos públicos costumeiramente vandalizados.

 

É só percorrer os centros históricos das cidades brasileiras para se constatar o desamor da sociedade pelos monumentos públicos e pelos prédios históricos.

 

O nosso mais importante museu histórico – o Museu do Ipiranga – está em ruínas e sua detentora, a Universidade de São Paulo, insolvente. Nenhuma preocupação com o significativo espaço da nacionalidade.

 

As autoridades paulistas e por extensão brasileiras preocupam-se em financiar espetáculos de discutível qualidade. No entanto, em termos de cultura, esquecem os registros do passado.

 

A Biblioteca Nacional, situada no Rio de Janeiro, com seu importante e valioso acervo espera uma restauração. Nada se anuncia. Fala-se em todos os “vales”. Não valem, porém, o acervo de livros trazidos por D. João VI, no ano de 1808.

 

A nossa América, a de fala portuguesa, parece deslocada de seu passado. Vive um presente ilusório. Imita tresloucadamente os países centrais e perde sua alma e sua consciência histórica.

 

Os demais latino-americanos têm muito a ensinar aos brasileiros, especialmente no que diz respeito aos registros históricos. Em todas as partes do continente, há uma positiva vibração patriótica.

 

Aqui, existe uma perda de civismo acentuada. As nossas autoridades parecem desconhecer a importância do passado para se poder construir o presente.

 

Uma sociedade sem valores perde identidade. Torna-se uma mera aventura sem conteúdo. Continua-se, por aqui, com a idéia de enriquecer a custa da desenfreada exploração de todos os bens da natureza.

 

Caem nossos templos. Ruem nossos museus. Perde-se a nossa mais antiga biblioteca. E o silêncio é geral. Vive-se em uma sociedade de alienados. Triste quando apenas o dia-a-dia importa.

 

Percorram nossas autoridades os múltiplos países desta América do Sul e irão encontrar um cenário diverso do produzido pela inépcia e pela incompetência aqui presentes.

 

Já se viveu momentos melhores na vida pública nacional. Os instantes históricos e as figuras de relevo eram registrados em nossas praças. Agora, só se pena no fugaz.

 

Há quantos anos não se instala um importante monumento em nossas cidades? Em São Paulo, certamente uma geração não assistiu o erguimento de qualquer documento de feitos importantes.

 

Vai mal. Vai-se perder a identidade e sem esta qualquer sociedade torna-se fantoche a serviço de terceiros. O patrimônio histórico nacional – desde Getúlio Vargas – não merece cuidado especial.

 

É lamentável.


PENSAMOS?

Acabou a Copa. Felizmente. É hora de repensar as nossas vidas e as agruras de nossa sociedade. Aprendeu-se, durante o torneio, que a improvisação é um dos males nacionais.

 

Não dá para brincar todos os dias. Imaginar que, por geração espontânea, tudo acontece sem esforço. Há que trabalhar. Pensar. Planejar. Uma cultura de faz-de-conta se instalou no País.

 

Não é de agora. Nem foi agora. Trata-se de um dramático atavismo que persegue os nativos. Desde a Carta de Pero Vaz de Caminha até os discursos dos atuais líderes de ocasião.

 

Fala-se sem refletir. O modismo do momento é exaurido até as náuseas. Quem domina as mentes são os marqueteiros. Vive-se de imagens. Nada se consolida.

 

Pulamos do analfabetismo para a televisão. Esta destruiu os valores que, antes, orientavam a sociedade. Informa facciosamente. Deforma a realidade. Viola comportamentos.

 

Apresenta um mundo ilusório, que, quando defrontado com o cotidiano, se dissolve. Ficam, apenas, os destroços dos valores inerentes às comunidades.

 

Nos últimos meses não se pensou. Agiu-se de acordo com os figurinos impostos pelas agências de publicidade. Estas geradoras das utopias inatingíveis.

 

Volta-se à normalidade. Ao dia-a-dia áspero de nossas cidades e de suas periferias. As carências retornam à pauta do cotidiano. É tempo de pensar. Rever pensadores da formação nacional.

 

Caberia reler Manoel Bonfim. Captar seu imenso pessimismo. Folhear Sérgio Buarque de Holanda. Repensar as relações advindas da casa grande e senzala, sem a visão dulcificada de Gilberto Freire.

 

Saber – sem falsos ufanismos – que pertencemos à periferia. Deixar de lado os falsos messianismos. Já cansou o palanque irresponsável. As eleições se aproximam cabe refletir sobre o presente e o passado.

 

O passado é amargo. Tudo demora a acontecer. A escravidão cessou em Portugal no século XVIII, aqui, na colônia, somente no fim do século XIX o parlamento retardatário agiu.

 

É sempre assim. O atraso é constante. Resta, pois, nesta antevéspera de eleições – elas ocorrerão em outubro – buscar bons parlamentares. Não mamulengos, como ocorre desde a criação do Estado nacional.

 

Tão fundamental, também, deve ser considerado o ato de escolha dos futuros integrantes dos Executivos. Examinar a vida pregressa dos candidatos. Seus hábitos e costumes.

 

O pensamento político do candidato deve apontar para diretrizes semelhantes ao do eleitor. O ato de votar é o único momento com plenitude na ação cidadã. Não pode ser objeto de improviso.

 

Conta-se que o presidente Juscelino participou de uma audiência com o Primeiro Ministro de Portugal, Salazar, no Palácio de Sintra. Era noite e os dois se reuniram em imenso e lúgubre salão oficial. O diálogo vale para o atual momento.

 

Teria dito Salazar a Juscelino: Já constatou Vossa Excelência que nossos povos têm grandes romancistas, grandes poetas, grandes escritores, mas não contam com filosofo sequer. Nossos povos não pensam.

 

Teria razão o Primeiro Ministro português? Cumpre a cada um negar.


ELES ERRAM SEMPRE

Chegou-se à semana final da Copa do Mundo. Os pessimistas de plantão devem se encontrar desesperados. Salvo o drama de Neymar, até o momento tudo correu bem nos estádios.

 

Todos com suas capacidades plenas. Um público vibrante e participativo. É verdade que faltou o povão. Culpa da FIFA. Os preços dos ingressos foram exorbitantes para grande parcela da população.

 

Não faltou energia elétrica nos múltiplos estádios. A comunicação dos eventos foi perfeita. Ninguém se queixou de falhas na internet. São motivos de satisfação para todos os brasileiros.

 

Cabe, neste cenário, uma retrospectiva sobre os meses que antecederam o evento esportivo. Anunciou-se o caos. A catástrofe plena. Nada funcionaria. Apontaram para uma vergonha nacional.

 

Deu-se, com o início dos jogos, o anticlímax. Tudo perfeito. Os visitantes estrangeiros à vontade nas arquibancadas. Os nacionais vibrando nas praças e ruas do nosso imenso território.

 

Ora, aqui uma indagação: por que alguns bem situados e com possibilidade de se expressar sempre se mostram pessimistas e aterrorizantes?

 

Defeito de formação. Alguns, entre nós, se julgam superiores aos demais. Com este defeito, possuem um profundo desprezo pela realidade que os cercam.

 

Dizem: tudo no Brasil é negativo. Tomam outros países – com componentes sociais diferentes – e comparam. Ai vem a saraivada de maldades contra os nossos costumes e condições de vida.

 

Uma lástima. É bom que a juventude economicamente colocada possa viajar. Conhecer outras realidades. Estudar em grandes instituições no exterior.

 

Não pode, porém, gerar uma onda de pessimismo incapaz de observar as boas coisas de nossa sociedade. Trata-se de um velho hábito dos povos ibéricos.

 

Considerar alguns países como superiores às suas próprias origens. Foi assim no passado de Portugal, quando o francesismo dominou as mentes lusitanas.

 

Transformou os costumes daquele país peninsular em arremedo da vida em Paris. Uma verdadeira anedota. Este hábito chegou ao Brasil desde a colonização.

 

Ninguém queria se estabelecer na colônia. Aqui era lugar para enriquecer e voltar a Portugal para, então esbanjar, em ingênua imitação, o que fora amealhado nos trópicos.

 

Hoje, a modo já não é o francesismo. Olha-se para o norte e só se vê qualidades nos Estados Unidos. Nada contra. É preciso, no entanto, ter capacidade de ver cada sociedade com seus costumes e valores.

 

Uma sociedade que deixa de acreditar em sua capacidade de se impor torna-se fraca e tende à fragilidade. Chega de imitações ingênuas. É preciso voltar a vibrar com as qualidades nativas.

 

Um povo que criou uma comunidade coesa e trabalhadora nos trópicos, tal como fizeram os brasileiros, mostra-se vitorioso e capaz de prosseguir com novos sucessos.

 

Seria bom que as cassandras – sempre situadas nos mesmo postos de observação – esqueçam seus complexos e suas tibiezas perante a realidade.

 

Poderiam ser mais positivas em suas análises e observações. Cansam e erram sempre. Deviam lembrar Juscelino. O presidente construtor de Brasília dizia: Os otimistas podem errar. Os pessimistas começam errando.

 

A Copa do Mundo aponta para a verdade desta afirmação.


UM BOM QUADRO ELEITORAL

As atenções estão voltadas somente para a Copa do Mundo. Os meios de comunicação estendem seus noticiários em um só espaço. São os gols. As defesas espetaculares.

 

No entanto, concomitantemente com a Copa do Mundo, episódios que dizem respeito à vida de cada brasileiro vão se desenvolvendo. É o futuro dos assuntos públicos que vai delineando.

 

Termina, nesta segunda feira, o prazo legal para a realização das convenções partidárias para a escolha dos candidatos às eleições de outubro próximo.

 

O quadro político está definido. As eventuais substituições de candidatos, após esta data, somente poderão ocorrer em situações extraordinárias. A sorte está lançada, como diriam os romanos.

 

Em São Paulo, pode-se afirmar que a democracia saiu ganhando na atual etapa política. Não ocorreu o afunilamento de candidaturas. Foi comum,

em pleitos passados, que os governantes, em processo de reeleição, somam, em torno de seus nomes, a imensa maioria das legendas partidárias.

 

Feria-se, com esta posição das lideranças políticas, princípio fundamental da democracia. A possibilidade de avaliação e escolha, entre múltiplos candidatos, de um reconhecido como o mais afinado com o eleitorado.

 

Era o monopólio do mais aparelhado, em razão do uso da máquina governamental. Agora, foi diferente. Abriu-se um leque de opções ao eleitor.

Ele poderá escolher a personalidade que melhor apresente valores e posicionamentos de conformidade com sua própria visão do mundo. Não hegemonia.

 

Muito pelo contrário. O eleitor terá um nome oferecido pelo PSDB, o atual governador de São Paulo. Outro apontado pelo PMDB, o novíssimo nome de Paulo Skaf. E o PT, com suas tradições e combatividade, apresenta o médico Padilha.

 

Estes os três candidatos de maior proeminência apresentados aos eleitores. Não há prognósticos plenos neste momento. Ao terminar a Copa do Mundo, o grande debate político se iniciará.

 

O tempo de televisão dos três candidatos é praticamente idêntico, o que dará uma possibilidade igual a cada um dos postulantes. Todos poderão expor suas idéias e indicar as imperfeições dos adversários.

 

São Paulo é o um estado da federação altamente politizado. Cada figura pública é analisada com lentes cívicas sensíveis. Haverá, é claro, como geralmente ocorre, um confronto entre o novo e o velho.

 

Os projetos não realizados ou as conquistas administrativas destes últimos anos serão objeto de apurada aferição pelo eleitorado. Sempre existe no intimo das pessoas uma vontade de renovar.

 

Este elemento poderá ser um fator considerável nesta campanha como foi em pleitos passados. É preciso aguardar a apresentação das propostas. Conhecê-las em profundidade.

 

O eleitor, com a mesma atenção que acompanha os jogos de futebol, terá que seguir o desenrolar da campanha. Não é uma mera copa o tema central de uma campanha política.

 

É muito mais. Trata-se da evolução de temas administrativos e consolidação de ideários democráticos. Não se pode ser omisso, quando se trata de política.

 

Aquele que se diz isento de vontade política está cometendo um desserviço à comunidade e a si próprio. A democracia exige participação. Acompanhamento constante.

 

É privilegiado todo aquele que pode participar ativamente da política pelo voto.

 

Desperdiçar o voto é agredir a cidadania.