Arquivos Mensais: maio 2014


ENFADONHA REPETIÇÃO

É estranho. Não passará, porém, despercebido do observador atento. Vive-se a pré-campanha eleitoral para a presidência da República. Tal como aconteceu em 2006. 

Naquele ano, como neste ano de 2014, forças estranhas se movimentam e as ruas tornam-se cenário de atos incompreensíveis. Greves do transporte coletivo. Invasões discriminadas.
A presença de figuras da má vida em atos públicos, de maneira estranha e inaceitável. A democracia nativa conta com um componente próprio e muito característico: o malfeitor público.

Ele é capaz de gerar rebeliões em presídios. Fomentar inconcebíveis cessações de atividades fundamentais. Gerar situações anômalas em abrigos de menores.

Em 2006, como hoje, os acontecimentos se repetem com uma irritante e monótona configuração. Agora, os meios de comunicação avançaram. Naquela oportunidade todos os ônus caíram sobre o Executivo.

Não havia análise isenta. Ao contrário, uma saraivada de inverdades agrediu a administração pública estadual. Melhorou, pois, neste aspecto, a democracia brasileira.

Já não há um partido de puros e angelicais integrantes. As demais agremiações, naquela época, eram consideradas agentes do demônio. Indignos de qualquer consideração.

Faz parte de nossa cultura. Em determinados períodos da História alguns são elevados aos altares – ou são gerados nas sacristias – e depois se envolvem em pecados inominados. Nefandos.

Os pais dos monstros se calam. Não surgem em público para, batendo no peito, afirmar: pequei e confesso que pequei. Ao contrário, silenciam, como não tivessem nenhuma culpa.

Sofre a coletividade. Por isto, é bom que os meios de comunicação passem a informar sobre todos os ângulos da vida política. Sem deformações. Ninguém pode indicar caminhos. Nenhuma instituição.

Na democracia, cada cidadão deve ser o único agente a captar as múltiplas verdades e, entre elas, optar pela verdade gerada pelos valores que orientam sua vida particular e ações públicas.

Ora, o voto é uma ação pública por excelência. Gera linhas de conduta para os escolhidos. Expõe a vontade oculta da cidadania. Possui um traço cívico de natureza única.

Há muitas formas de expressar a condição de pertencer a uma determinada nacionalidade. O voto, concedido aos nacionais, é a melhor forma dos cidadãos demonstrarem seu efetivo vínculo com o País.

Daí a importância da atenção de cada um para as ocorrências – muitas vezes de natureza criminosa – que vão se desenrolando por todo o Brasil e de maneira particular em São Paulo.

Os agentes dos atos de 2006 – quando havia eleições presidenciais – são os mesmos de hoje. Enfadonhamente se repetem os fatos. O cachimbo faz a boca torta. E muito.

Deve o eleitor colecionar todas as notícias que surgem a respeito de determinados figurantes, algumas vezes ocultos aparentemente, presente nas manifestações e reuniões de determinados segmentos.

Encontrará, ao final de sua busca, com clareza os autores costumeiros dos sofrimentos da população. O pior é que estes se apresentam como anjos, salvadores dos oprimidos.

É mero cinismo. Ou o uso de todas as artimanhas para atingir seus objetivos. Machiavel – nestas terras – seria mero aprendiz. Sentiria constrangimento em perceber que sua obra – O Príncipe – é cartilha em terras tropicais.

Pena que os detratores de ontem não tenham coragem de afirmar: Fomos injustos ao retratar os idos de 2006. Lamenta-se. Mas o passado nem Deus muda.  


CANSEIRA CÍVICA

A campanha eleitoral já está em curso. As favelas estabelecidas – hoje chamadas de comunidades – passam a ser visitadas pelos candidatos. Todos se tornaram humanos e despretensiosos.

 

É uma satisfação inusitada se ver tantas gentilezas com o povo. Trata-se de antevéspera de pleito eleitoral. Um imenso cinismo envolve o ambiente. Todos se tornaram cidadãos prestantes. E idôneos.

 

A democracia perde com as campanhas eleitorais nativas. Rompem-se os liames de boa convivência. A mentira toma o lugar da verdade. A respeitabilidade é lançada ao esquecimento.

 

Há uma profunda frustração popular. Por toda a parte, a pergunta é sempre a mesma: onde vamos parar? Ninguém tem a resposta. As facções políticas exorbitaram na prática de ilícitos.

 

Isto levou a uma profunda descrença nas pessoas e, o que é pior, nas instituições. Ninguém oferece exemplo de austeridade e respeito à coisa pública.

 

As exibições de malfeitos se espalham por todos os cenários. Nos municípios, estados e na federação uma aluvião de investigações se acumulam.

 

Não há, salvo em raras ocasiões, respostas do Judiciário às ações propostas pelo Ministério Público. Os promotores e procuradores trabalham incansavelmente. As polícias investigam.

 

A resposta corriqueira: a declaração de ocorrência de prescrição. Assim, réus são liberados e acusações terminam em lamentável arquivamento. O processo penal brasileiro é agente de desmoralização da Justiça.

 

Todos estes fatos levam a uma canseira cívica sem precedentes. Um dia acreditou-se em novos lideres. Aceitaram-se novas propostas de convivência política e social.

 

O resultado se concretizou em uma imensa frustração. Agora, como nunca antes, os candidatos mostram-se pouco propensos a criar esperanças na coletividade.

 

Repetem o mesmo do mesmo. Nada de novo. Nenhuma posição inteligente e auspiciosa. Tudo é uma imensa pasmaceira. A canseira popular explode aqui e ali em manifestações espontâneas.

 

São compreensíveis e alentadoras. No entanto, apresentam a contra face. Esta se espelha no desespero dos que querem se deslocar pelas vias das cidades.

 

Não há possibilidade de deslocamento. Os custos psicológicos são imensos. Os econômicos seguem o mesmo caminho. Perde-se saúde e dinheiro, nas manifestações desarrazoadas.

 

Não há a presença da autoridade em nossas cidades. Invadem-se estabelecimentos. Ferem-se pessoas. Violam o direito de livre locomoção. As autoridades se mantêm em absoluto silêncio.

 

Não estão nem ai. Querem vencer as eleições. Com este objetivo, mostram-se inócuas e acovardadas. Triste democracia em que por um cargo público a autoridade se perde.

 

Os políticos, em campanha, deviam deixar de lado seus marqueteiros e incógnitos saírem pelas cidades e campos. Captariam a realidade social efetiva.

 

Iriam perceber que o cansaço atinge alto grau de insatisfação. A sociedade se apresenta exausta. Humilhada. Os safados superaram sua própria safadeza.

 

O civismo tornou-se cinismo.


PADRÃO FIFA DE GROSSERIA

É lamentável a fala própria de colonizadores seiscentistas com que os dirigentes da FIFA tratam os brasileiros. Sem qualquer traço diplomático.

 

Grosseiras nas posições e falsos nas colocações. Eles aceitaram o Brasil como sede da Copa do Mundo 2014. Conheciam a cultura do País e as formas de agir da gente brasileira.

 

Não há nenhuma novidade na construção dos estádios. Sempre aconteceram atrasos em obras públicas nestas bandas. A ausência de uma infraestrutura ferroviária é sabida.

 

Todos têm plena liberdade de se locomover no território nacional. Nada é objeto de censura ou deformação de imagem por parte dos brasileiros ou de seus governos estaduais e do federal.

 

Mentirosa, portanto, a exposição de dirigente da FIFA. Quem escolheu o Brasil foram os membros do organismo de futebol. Se o governo da época, solicitou jogos por todo o território nacional cabia aos dirigentes da FIFA impugnar o pedido.

 

Agora, é tarde para vir com agressões verbais descabidas. A FIFA já causou muito mal ao Brasil. Exigiu alteração de leis com o objetivo de obter lucro na venda de bebidas, por exemplo.

 

Fez imposições que transformaram nossos estádios em arenas de luxo, sem lugar para os torcedores humildes. Impôs exigências descabidas a uma sociedade terceiro mundista.

 

Foram sempre os dirigentes da FIFA recebidos com cordialidade e cortesia. Aqui silenciaram, quando se encontram em seus países de origem ofendem e agridem a todos os brasileiros.

 

É bom que o episódio cale profundamente na consciência nacional brasileira. É descabido aceitar exigências desmedidas para a realização de um mero evento esportivo.

 

Este, na verdade, de esportivo tem pouco. É um voraz agente de negócios e propagador de vícios, como bebidas alcoólicas, no interior dos estádios. Tinha-se vencido esta etapa, retrocedeu-se por malefício da FIFA.

 

Vaidosos e pretensiosos se mostram os atuais dirigentes da entidade do futebol. Deveriam receber aulas de boas maneiras antes de se comunicarem com a comunidade internacional.

 

Se os europeus não conhecem geografia econômica, não é culpa dos sul-americanos. É demonstração de uma visão egocêntrica que não aprecia ver a realidade do mundo.

 

A Copa irá se realizar. Tudo dentro dos estádios ocorrerá normalmente. Mas, não pode a FIFA, a partir de sua arrogância, exigir que a população não proteste e demonstre seu desamor com as verbas despendidas astronomicamente.

 

Já passou o tempo de se ouvir calado os impropérios de falsos agentes dos povos ditos civilizados. Fiquem com sua arrogância e abandonem o ar de colonizador enfadado.

 

Os povos latino-americanos já sofreram muito com as estultices de vários representantes dos países centrais. Querem agora respeito, tal como respeitam todas as opiniões.

 

Aprendeu-se, agora, mais um elemento: o padrão FIFA de grosseria. Haverá resposta. É inevitável.

 

É só esperar junho. Está próximo.


DEMOCRACIA E A REALIDADE

Quando se examina o cenário político nacional, o observador se depara com um quadro de imensa complexidade. Primeiro, ele deseja saber que tipo de democracia se encontra presente em nosso País.

 

Ai, o observador sente dificuldade inicial. Como enumerar os elementos que compõe uma verdadeira democracia? Constata que há liberdade de pensamento.

 

É um dado positivo. Todos têm opinião própria sobre os mais diversos acontecimentos. Não há qualquer obstáculo ao livre pensar. É conquista que, em toda a parte, custou uma enormidade de vidas.

 

Surge, após esta constatação, uma nova indagação. Apresentam-se confiáveis as informações recebidas pela cidadania? Aqui as amostras recolhidas levam a um registro.

 

As informações são geradas por centrais únicas de notícias. Basta ver as manchetes dos jornais impressos: são iguais, apesar de originárias de redações diversas.

 

Claro que a cidadania, neste caso, recebe uma versão uniforme dos fatos políticos e sociais. Isto não permite que se instale, no interior das consciências, a boa dialética.

 

Só esta conduz às sínteses individuais. Ou seja, a de cada cidadão. A uniformidade de pensamento é maléfica em todas as atividades humanas, particularmente na política.

 

A política exige pluralidade de visões do mundo. Nela nada pode se apresentar linear. Só as ditaduras contam com o pensamento único. Fora dele geram-se as perseguições e as conseqüentes prisões.

 

A essência da democracia é a liberdade. A liberdade deve produzir pensamentos díspares. Jamais a unicidade e a ortodoxia. Já se passaram os tempos dos dogmas.

 

Esta uma deficiência de nossa democracia. A ausência de pluralidade informativa. Tudo é igual. O pensamento único elaborado por publicitários deforma a verdade.

 

No passado, os teólogos impunham uma só verdade. Hoje, são eles, os publicitários, que desejam conduzir a vontade coletiva. Procuram alterar valores e costumes.

 

Às vezes agem de maneira positiva. Em política, porém, o agir é sempre negativo. Porque distorcem a verdadeira identidade dos candidatos. Transformam fantoches em lideres.

 

Criam falsas figurações da realidade social. A partir do pressuposto de que agir, politicamente, é gerar esperanças, produzem configurações inalcançáveis.

 

Os partidos políticos, por sua vez, dentro dos costumes da democracia pátria, mostram-se incapazes de gerar corpos de doutrina de acordo com as diversas visões da sociedade.

 

Todos se mostram iguais no agir e no elaborar propostas. Os programas partidários gratuitos – no rádio e na televisão – são pobres de conteúdo. Sempre as mesmas falas em personagens diferentes.

 

Não se busca mais, na democracia nativa, a obtenção de novos traços doutrinários e a geração de novas idéias. Esquerda, direita e centro não diferem em nada. Um só objetivo: a conquista de cargos eletivos.

 

Há crises no setor de abastecimento das grandes cidades, especialmente São Paulo. Nenhuma análise convincente é concretizada por parte dos veículos de comunicação ou pelos partidos políticos.

 

Existe um silêncio imposto sobre a calamidade que se anuncia: a falta de água. Os antecedentes que geraram o atual estado de coisas não são examinados.

 

Certamente, em algum momento, houve desídia. Quem a praticou? Na democracia brasileira, conduzida por centros de inteligência altamente remunerados, as crises anunciadas não têm autores.

 

É matéria abstrata. Não se insere no espaço política. Coloca-se no campo da metafísica.