Arquivos Mensais: março 2014


A MENTIRA COMO DISCURSO POLÍTICO

A leitura desapaixonada das notícias da administração pública e dos assuntos políticos conduz a uma profunda depressão. O cidadão comum sente-se ofendido. É menosprezado.

 

Os administradores públicos parecem que, diariamente, procuram criar fatos absolutamente inverossímeis. Falsos. Assemelham-se a ilusionistas sem qualidade.

 

Ninguém é veraz. Os militantes de todos os partidos parecem concorrer ao prêmio concedido ao maior mentiroso. Quem disser a maior inverdade será o vitorioso.

 

Falta água. Inventa-se um conflito entre os estados federados. Não se explica porque outras fontes do liquido não foram obtidas. As reservas hídricas do Vale do Ribeira, por exemplo.

 

Há um silêncio sepulcral a respeito do assunto. Desde sempre, sabia-se que as reservas de água existentes, aqui no Planalto, são insuficientes para abastecer uma população tão numerosa como a do Grande São Paulo.

 

As chuvas sempre foram volumosas. O risco colocado de lado. Este ano, quando a estação chuvosa foi escassa, a tragédia aconteceu. Os reservatórios estão próximos do esgotamento.

 

Não há explicação sobre o descaso com a população. Exposições retóricas são feitas. Responsabilidades, no entanto, não são assumidas. O culpado é o outro. Jamais o autor da contingência.

 

O mesmo cenário se estende a todo o País. Os administradores públicos, eleitos ou nomeados, jamais assumem responsabilidade por seus atos. Vive-se uma sociedade de farsantes.

 

Esquecem os titulares de cargos eletivos que, após grandes angústias, a sociedade reconquistou o regime democrático. Neste a transparência é princípio básico. Inafastável.

 

Toda a vida administrativa é acompanhada com atenção e sensibilidade pela sociedade. Nada passa despercebido. Cada movimento do administrador público é julgado e devidamente anotado pelo cidadão.

 

Já foi o tempo em que a censura proibia a informação plena, repleta de pormenores. Agora – apesar das censuras econômicas – as múltiplas formas de comunicação permitem o conhecimento da realidade.

 

Não dá para esconder a verdade. O esforço é inútil. Aos poucos, os cenários reais aparecem e ai o julgamento da comunidade é mais severo. Parece que um amoralismo se espalhou por todos os setores.

 

As personalidades públicas brasileiras se transformaram em cínicos. Mostram desprezo pelas convenções morais. São descarados. Falta-lhes vergonha na cara.

 

Praticam os mais ignóbeis atos. Realizam as mais inconcebíveis operações. Jamais assumem a responsabilidade por suas ações. Possuem um sentimento de desprezo pela cidadania.

 

O despudor atingiu todos os três Poderes da República. Torna-se difícil conviver com esta situação de menoscabo. Os institutos de pesquisa da opinião pública não se preocupam em captar o humor da sociedade.

 

Apenas buscam recolher a vontade popular sobre os candidatos aos vários postos eletivos. No entanto, aquele que convive com o cidadão das ruas sabe da existência de um profundo desconforto.

 

Uma canseira cívica envolve toda a cidadania. Os discursos sem objetividade cansaram. É preciso voltar à verdade e a respeitabilidade. Não dá para conviver com o descaramento atual.

 

Uma sociedade precisa de moralidade para sobreviver. No pântano da imoralidade, só a decadência pode acontecer.


ANCHIETA, O NOVO SANTO

Anuncia-se a próxima canonização do Padre José de Anchieta, considerado o Apóstolo do Brasil, como proclamado em seu funeral, no ano de 1597, pelo prelado do Rio de Janeiro.

 

Um apóstolo é figura que conta com qualidades especiais e, entre elas, a santidade, atributo próprio de Deus, segundo o ensinamento de teólogos. Desde tempos remotos, concede-se o título de santo a todo aquele que possui perfeição de vida, virtudes morais e ortodoxia doutrinal.

 

A partir do Século XIX, foram canonizados, fundamentalmente, os missionários vitimas de martírios e que testemunharam a expansão do catolicismo na África e na Ásia.

 

Anchieta, tomando-se o retrospecto de sua vida no Brasil, mostrou-se sempre abnegado na pregação de seus valores e princípios. Não titubeou perante os mais árduos obstáculos.

 

Estudioso, ele refletia com plenitude o clima europeu da época em sua obra literária. Elaborou inúmeras peças teatrais e compôs poema com mais de cinco mil versos, considerado, por seus pares, uma das grandes obras poéticas do Renascimento.

 

Todos conhecem, desde os bancos do primeiro ciclo, as inúmeras viagens de Anchieta pelo vasto e então inexplorado território brasileiro. Esteve no litoral sul de São Paulo, deslocou-se para a Baia de Guanabara e morreu aos sessenta e três anos no Espírito Santo.

 

Seu corpo foi trasladado para a Bahia, em 1609. Desconhece-se, no entanto, a localização de seus restos mortais. Desapareceram sem que os registros da época indiquem o paradeiro.

 

Anchieta era membro da Companhia de Jesus, ordem religiosa concebida após o Concílio de Trento com a finalidade de combater a Reforma Religiosa.

 

A história registra os jesuítas – aqueles que lutam por Jesus – com epítetos, por vezes, altamente favoráveis e, em outras oportunidades, profundamente negativos.

 

Foram chamados de polícia do catolicismo, granadeiros da Santa Sé, braço direito do Papa, quinta-essência do espírito católico ou, de maneira pejorativa, de precursores do anticristo.

 

A Companhia de Jesus teve grande influência por toda a América ibérica. Instalaram-se no espaço espanhol e português. Conflitaram com os colonizadores e conheceram momentos de grande depressão.

 

O Marques de Pombal expulsou os jesuítas de Portugal e suas colônias em 1767. Seis anos depois obteve a extinção da Ordem na Península Ibérica, pois, com esta finalidade, agiu diplomaticamente junto aos reis da Espanha.

 

Só muitos anos mais tarde os jesuítas, depois de se refugiarem no leste europeu, puderam ser novamente reconhecidos como ordem religiosa pelo Vaticano.

 

Anchieta, portanto, dentro do espírito da época em que aportou no Brasil, era um soldado da Igreja e da Contra-Reforma. E, certamente, com este espírito operou por toda a parte onde se encontrou.

 

Assim, não foi diferente no episódio narrado por Roberto Southey, em sua História do Brasil. Sob a epígrafe “Executa-se um protestante”, o autor narra que Anchieta, no enforcamento de João Bollés – ou Jean Du Bordel – auxiliou o carrasco na obtenção da morte do executado.

 

Mais tarde, Anchieta teria apontado para o que considerou um gesto de bondade: a sua ação indicou um ato de misericórdia. Desejou abreviar o sofrimento do herege.

 

O futuro novo santo já deu sua explicação. Quase quatrocentos anos depois do início de seu processo de canonização, a sua versão, segundo se depreende, foi aceita.

 

O Brasil terá mais um santo.


A CICLOTOMIA NACIONAL E OS SEUS MALEFÍCIOS

A ciclotimia nacional e os seus malefícios.A ciclotímia é inerente ao caráter nacional. Uma verdadeira roda gigante de emoções. Vai-se da euforia insensata a mais deprimente das depressões.

 

Nada é linear na vida social dos brasileiros. Vai-se aos trancos e barrancos sem qualquer preocupação com a sensatez. O brasileiro é pautado pelos jornais televisados. Especialmente, os das grandes redes.

 

O âncora falou, é verdade. Falta senso crítico. Os debates – os poucos que ainda existem – são conduzidos por coordenadores engajados. Nada de democracia. Sempre monocórdios.

 

Este comportamento se estende a toda a sociedade. Há uma carga de autoritarismo em todas as esferas. Às vezes, esta anomalia explode de forma assutadora.

 

Ai é um Deus nos acuda. Todos, a uma só voz, falando a mesma coisa. Cansativamente, iguais. Sem qualquer traço de originalidade. Os meios de comunicação, por aqui, são monotemáticos.

 

Nada em profundidade. Falta água nos reservatórios, ninguém vai analisar o comportamento da Sabesp nos últimos anos. Não se conhece porque não foram obtidas novas fontes de abastecimento. Não se fala na insanidade do consumo mínimo de água.

 

Todos – a uma só voz – colocam a culpa pela escassez na estiagem. Nada investigativo se apresenta em qualquer veículo de comunicação. É o País do samba de uma nota só.

 

O vício se estende para todos os cenários. A reforma política, por exemplo, foi assunto exaustivo durante meses. De repente, não mais do que de repente, sumiu. Ninguém mais viu. Nem se falou.

 

Estamos, no entanto, às vésperas de um pleito geral e tudo continua como dantes no quartel de Abrantes. Nada foi examinado pelo Congresso. Todos estão felizes com a caótica situação partidária.

 

No País, onde é preciso sempre levar vantagem, a mixórdia partidária é confortável para os titulares do Poder. Ainda porque algumas agremiações tornaram-se verdadeiras organizações de boas vidas.

 

O fundo partidário sustenta dirigentes. Permite convescotes e confere remuneração para os amigos do “boss”. Assim, todos se calam e o quebra cabeça partidário permanece.

 

Em outubro, o eleitor terá dificuldades em escolher o seu candidato, no cipoal de legendas – trinta e duas – que será oferecido a sua opção. E aqui vai uma observação.

 

Estes candidatos deverão passar pelo crivo dos partidos políticos. Estes, por seu turno, terão que levar os nomes escolhidos em convenção à apreciação da Justiça Eleitoral.

 

Esta – a Justiça Eleitoral – submeterá os nomes oferecidos a sua análise ao funil da Lei da Ficha Limpa. Os candidatos com vida pregressa, nos termos do disposto neste diploma legal, não poderão receber legenda.

 

Ora, é aqui que se oferece mais um tema à reflexão da cidadania. É admissível os partidos políticos indicarem nomes com passagem negativa nos incisos da Lei da Ficha Limpa?

 

Claro que não. Porém, os partidos não merecem nenhuma punição por agirem contra a lei e os bons costumes. Como este tema não interessa aos interessados diretos, nunca foi objeto de reflexão. Na vizinha Colômbia, os partidos, quando se assemelharem a máfias políticas, conforme a literatura daquele país, suportam penas pecuniárias ou ainda mais severas.

 

Quando se romper o surto atual da ciclotimia nacional – a malfada Copa do Mundo de Futebol – valeria a pena trabalhar sobre a irresponsabilidade partidária existente no Brasil.

 

Vai ver ai se encontra a raiz de todos os demais inconvenientes da vida pública nestes trópicos.


A COMPOSIÇÃO DA JUSTIÇA ELEITORAL EM OBSERVAÇÃO

O Carnaval foi precedido por uma semana repleta de surpresas. O Supremo Tribunal Federal deu a nota maior. No julgamento do processo 470 – o mensalão – a mudança na composição da Corte levou ao fim da condenação de alguns réus pelo crime de quadrilha.

 

Muita perplexidade por parte dos adversários dos condenados, especialmente alguns observadores engajados. Nenhuma, no entanto, para os que analisam o julgamento com imparcialidade.

 

O bom senso, raro na primeira etapa do julgamento, prevaleceu. Um tribunal deve agir com tranqüilidade e com suporte no Direito. Emoções e partidarismos não ficam bem em magistrados.

 

Vai se salvando a imagem da mais alta Corte. O seu presidente, sempre impetuoso, nem sempre operou com a fleuma exigida por sua posição. Mostrou-se irascível e descortês com seus pares.

 

Recuperou-se, no entanto, o ministro Joaquim Barbosa ao argüir, em entrevista no recinto do Conselho Nacional de Justiça, tema até agora desconsiderado nos debates correspondentes aos assuntos eleitorais.

 

Todos falam da excelência da Justiça Eleitoral. É realmente importante sua presença no panorama político-eleitoral do País. Os resultados dos pleitos são considerados idôneos.

 

Já não se fala em vícios no ato de votar e na apuração dos sufrágios, apesar de mortos ainda comparecerem as secções de votação, como ocorreu com o irmão falecido do mensaleiro Pizzolato, sem qualquer explicação oficial.

 

O episódio, grave pelo seu simbolismo, não mereceu nenhuma providência da Justiça Eleitoral, mera entrevista de um magistrado. Ponto e basta.

 

Reflexo do autoritarismo ainda presente na vida oficial do País. A autoridade não deve explicação. Considera-se um monarca absolutista que não precisa dar esclarecimentos a respeito dos mal feitos em seu reino.

 

Pena que ainda seja assim. Volta-se, contudo, à entrevista do Presidente do Conselho Nacional de Justiça. Ela tocou em ponto sensível do Judiciário. A composição de seus colegiados.

 

Lembrou Joaquim Barbosa que os colegiados da Justiça Eleitoral são compostos, além dos magistrados, por advogados militantes, muitas vezes titulares de bancas exitosas e em pleno exercício.

 

Disse o Presidente do CNJ algo profundamente sensível e até hoje omitido nos debates, apesar de constar da Constituição Federal com toda clareza e precisão de linguagem.

 

É oportuna a presença de advogados militantes nas cortes eleitorais? Pergunta que merece reflexão. Nada mais dramático do que a facciosidade em julgamentos.

 

Esta pode ocorrer a favor ou contrariamente aos políticos cujos casos estejam em julgamento. Acredita-se que os advogados escolhidos, dentre personalidade “de notável saber jurídico e idoneidade moral” honrem o compromisso realizado ao assumirem seus cargos.

 

No entanto, em uma democracia, onde tudo deve ser transparente, as consciências ainda se mantêm no interior da mente de cada um. E as mentes são inatingíveis.

 

Nas reformas políticas, quem sempre se anunciam e nunca se realizam, um novo tópico poderá ser arrolado para exame do

Congresso Nacional: a forma de composição das Cortes Eleitorais.

 

É bom recordar que o concurso público é a melhor forma de preenchimento de cargos. O amigo do rei, por mais idôneos que seja, sempre deixa uma suspeita no ar.