DEMOCRACIA EM RISCO

Um fantasma ronda às democracias.

A descrença se abate.

Baixa é a qualidade dos candidatos a dirigentes públicos.

Os candidatos, aqui e por toda a parte, se mostram despreparados e falastrões.

Já não se encontram, no mercado político, estadistas.

Talvez, consequência da ampla exposição pelos meios de comunicação.

Quem sabe fruto do despreparo causado pelo mau ensino das escolas.

Pode ser produto da massificação própria das sociedades urbanizadas.

Múltiplas, pois, as razões.

A realidade política aponta para o desengano coletivo.

Ninguém acredita em políticos.

Independe a ojeriza da cor partidária.

Todos – em graus diferentes – merecem rejeição.

Claro, uma sociedade não pode subsistir sem dirigentes.

O ideal dos anarquistas – o fim do Estado – jamais foi alcançado.

Todas as tentativas, com este objetivo, foram em vão.

Há uma maldição que recai sobre a humanidade.

A necessidade de contar com dirigentes.

Chefes que a conduzem.

O ato de dirigir exige esforços.

Precisa-se sair do atual atoleiro político.

A falta de perspectiva coloca em risco a nacionalidade, em momento de renascimento das nações.

O Brasil é privilegiado.

Conta com uma única língua entre seus nacionais.

Possui um imenso território.

Dispõe de inúmeros privilégios naturais.

Só falta a qualificação de seus políticos.

Perderam o brilho.

Tornaram-se opacos.

Medíocres.

Enfadonhos.

Todos semelhantes entre si.

Passaram-se trinta anos, após a promulgação da Constituição de 1988, regrediu-se em matéria política.

Ganhou-se, há trinta anos, documento constitucional extenso.

Perdeu-se, no entanto, na qualificação de nossos homens públicos.

Não se formaram – em plena democracia – estadistas.

Apenas assaltantes de cofres públicos.

Entre os candidatos, ora a presidente da República, os mais citados surgem como réus em foros criminais.

Há algo errado.

A legalidade é respeitada pela sociedade e desrespeitada pelos que a pretendem dirigi-la.

Um paradoxo.

Presente uma endemia de larápios públicos.

Eles precisam ser afastados.

Quem corre risco é a sociedade e seu oxigênio: a democracia.

É preciso salvá-la.

Pelo voto.


A POLÍTICA E SUAS FALÁCIAS

A política é espaço de mutação perene.

Nada é estático em política.

Sua ação se desenvolve no cenário social.

Este é de constante variação.

São múltiplas as variáveis que incidem sobre a ação política.

Os acontecimentos econômicos.

Os costumes em mudança acelerada.

Os desejos individuais e coletivos.

E um sem número de outros fatores.

Neste cenário de infinitas situações, os estudiosos conceberam instituições.

Buscaram conferir espaços de solidez em campo movediço.

Atingiram muitas vezes seus objetivos.

Em momento dramático, quando os impulsos revolucionários levaram ao rompimento de bases sólidas antes consolidadas, explodiram novas figuras jurídicas, no campo da política.

Aí esta, presente em todos os povos, a representação popular.

Por ela, um determinado cidadão recebe de seus iguais poderes para agir com extensos limites.

É o mandato livre, segundo os autores que tratam do tema.

Sua formulação se deu nos contornos da Revolução Francesa.

Sua adoção e propagação foi plena.

Não encontrou contestação.

A boa doutrina e a melhor prática impõe o mandato livre, dizem os especialistas.

Grande falácia.

Hoje, nossos parlamentares – aqui e por toda a parte – são titulares de mandatos imperativos ocultos.

Recebem determinações de seus financiadores.

Cada deputado representa o interesse de pessoas ou grupos.

Jamais do povo como um todo.

Uns representam o agro negócio.

Outros a indústria em seus variados setores.

Muitos os bancos e o mercado financeiro.

Alguns os segmentos religiosos.

E assim infinitamente.

Só não possui representação o detentor da soberania: o povo.

O povo confere mandatos livres e, por passe de mágica ( ou de pecúnia) estes se tornam imperativos.

Vive-se, pois, com os atuais contornos da representação dita livre, uma grande mentira.

Aqui, uma constatação, na política,  e em seus institutos, encontram ficções jurídicas aceitas por inércia.

O povo, no passado, deferiu a terceiros sua soberania e foi fraudada por mandatários inescrupulosos.

Examinem a composição de nossas Casas Legislativas e encontrarão representantes dos mais variados setores.

Falta a autêntica representação popular.

O povo tornou-se escravo de seus mandatários.

Algozes da soberania popular.

 

 


COLONIALISMO, SEMPRE VIOLÊNCIA

É amarga a situação dos povos colonizados.

Sofrem de todas as formas, físicas e psicológicas.

Quando da chegada dos invasores europeus ao Brasil, lá nos idos de 1500, os povos autóctones viviam livremente suas existências.

O mesmo ocorria por todo o continente americano.

Do Alasca à Patagônia, com diferentes graus de evolução, se distribuíam diferentes formações.

Foram submetidos, cinicamente, à escravidão ou aniquilados sem qualquer traço de respeitabilidade pelo ser humano.

Na última onda colonial, até marxistas defendiam a necessidade de reduzir a escravos os povos dominados.

Era função do europeu educar.

Esta amarga onda de agressões contra outros povos, iniciada no Século XVI e retomada após a Primeira Guerra Mundial, causou traumatismo em todos os contingentes humanos submetidos à violência do colonizador.

O tema é sempre cinicamente tratado e muitos dele fogem deliberadamente.

Ou por vergonha ou por covardia.

Raros são os documentos descritivos dos costumes dos colonizadores em terras ocupadas.

Afasta-se do tema.

É melhor esquecer, dizem alguns.

Outros, por interesses circunstanciais, chegam até a conceber elogios aos colonizadores, como se deu com determinado sociólogo.

É raro um documento retilíneo de quem viveu em terras colonizadas.

Isabela Figueiredo sai da costumeira covardia em expor a verdade vivida.

Cadernos de memórias coloniais é obra que foge à visão edulcorada do colonialismo.

Expõe com tintas expressivas os sofrimentos impostos aos negros de Moçambique pelo português.

Tudo faziam baseados no catolicismo e no patriarcado.

O homem português tudo podia.

Era o macho dominador e predador.

Tomava as mulheres negras como objetos.

Estas, em sua pobreza, não contavam com capacidade de reação.

Era a mera submissão.

A autora, em um misto de perplexidade e admiração, toma o próprio pai como a figura do colonizador.

Não respeita nada.

Distribui violência das mais variadas formas.

É um colonizador.

A obra de Isabela Figueiredo, ao retratar a presença portuguesa em Moçambique, faz o leitor brasileiro retornar no tempo.

E, aí, entender o sofrimento de negros e autóctones com os atos dos colonizadores em terras brasileiras.

Não há como adocicar à verdade.

Basta a leitura desapaixonada de Caderno dememórias colônias para se compreender os sofrimentos impostos a negros e índios durante séculos.

Somos o produto da violência.

Esta nos tornou apáticos.

Os governantes, nestas terras, imaginam-se tutores da sociedade.

Fazem de seus habitantes o que querem.

Amesquinham a todos.

Submetem a todos.

Todo titular de uma parcela de Poder mostra-se um colonizador.

Lembram os europeus dos primeiros tempos.

Aqueles enraizaram em nossa sociedade a concepção de que o Poder a tudo pode.

Principalmente humilhar e  submeter.

Olhe-se para o Brasil de hoje.

Captar-se-á os reflexos do colonialismo dos primeiros tempos.

 

 

 

Referências.

Isabela Figueiredo – Caderno de memórias coloniais – Todavia – São Paulo – 2018

Guido Liguori e PasqueleVoza – in Dicionário Gramsciano – Boitempo – 2017 – vide verbete: Colonialismo.


FARSAS

“Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”.

 

 

O texto constitucional é claro.

A realidade política obscura.

A Constituição, no parágrafo primeiro do seu artigo 1º, é precisa:

A cidadania é titular do poder e o exercerá diretamente.

Não acontece.

Raramente, os brasileiros são chamados para e dizer o que querem.

Há temor pela democracia direta entre nossos políticos.

Temem à verdade.

Dois presidentes da República foram objeto de impeachment – ou juízo político – nestes últimos trinta anos.

Grupos parlamentares se reuniram.

Fizeram conchavos.

Afastaram mandatários eleitos pelo voto popular.

Titulares legítimos do poder, eleitos pelo voto da cidadania.

Não foram, contudo, ouvidos os eleitores.

Falha gritante das práticas políticas brasileiras.

Os representantes, meros titulares transitórios da vontade popular, tornaram-se usurpadores.

O impeachment é a revogação de mandato conferido pela cidadania.

Só a esta, pois, cabe retirar o cargo concedido por sua vontade.

Só quem confere pode revogar mandato.

O princípio vale para esfera privada e para a pública.

Os atos praticados pelos parlamentares – senadores e deputados federais – nos impeachment ocorridos, após 1980, são ilegítimos.

Agridem a pureza democrática.

Democracias devem ouvir, nestes casos, quem ofereceu o mandato: o eleitorado.

O referendo é indispensável.

Se não acontecer, o regime  não pode ser considerado verdadeira democracia.

São meros simulacros de democracia.

No Brasil, praticou-se típica farsa ao se afastar presidentes sem ouvir os eleitores.

A Constituição prevê a democracia direta em seu preâmbulo.

Não utilizá-la é violência contra à cidadania.

É cinismo.

Farsa.