A FARSA ELEITORAL


A política partidária nacional é melancólica. Eugenio Ionesco, o dramartudo romeno, ficaria alucinado ao observar as alianças que se convencionam. É o teatro do absurdo.
 
Ele, Ionesco, jamais poderia imaginar um cenário tão estonteante. Irreal. Adversários de ontem tornam-se aliados eternos. Titulares das mais diversas maneiras de ver à sociedade se unem despudoradamente.
Não há ideologias. Muito menos doutrinas claras. Tudo é confuso e desmoralizante. A direita soma-se à esquerda. Reacionários agregam-se a progressistas.
 
Tudo por um minuto na televisão. Este instrumento de fazer loucos tornou-se o único objetivo dos partidos. Pouco importa a coerência. As palavras proferidas de uns contra outros.
 
Vale a exibição na tela. Poder apresentar o que a imaginação dos marqueteiros de plantão concebe. Nada valem os programas partidários. Pouco importa a coerência. 
 
O eleitor é considerado um ingênuo a ser enganado. E como. Com promessas faraônicas. Propostas inexeqüíveis. Discursos imponentes. Falas sem oração principal.
 
Os candidatos irão se esconder atrás de falsas imagens. Quanto menos falarem, será melhor. Erram menos. Não importa conhecer o caráter dos postulantes.
 
Os marqueteiros são senhores de toda a verdade. Eles conduzem as campanhas de acordo com pesquisas de opinião, sem qualquer vinculo com a intenção última dos eleitores.
 
É o imediatismo levado às últimas conseqüências. É insuportável – para quem pensa – conviver com a realidade política partidária nacional. É acometido de náusea cívica.
 
Janio Quadros, conhecido por suas tiradas irônicas, afirmava que nada mais imprevisível que os políticos no cio eleitoral. Ficam excitados. São capazes das mais inoportunas atitudes.
 
Talvez seja esta a explicação biológica para os acasalamentos partidários esdrúxulos que vão se verificando a cada dia, neste período pré-eleitoral. Haja paciência por parte do eleitor.
 
Claro que esta situação não pode perdurar. Desgasta o regime democrático. Leva à descrença nas instituições. Não bastam novas leis moralizadoras, como a Lei da Ficha Limpa.
 
Há necessidade de uma depuração na consciência dos políticos. Devem ser cobrados por suas incoerências. Necessitam de um banho lustral no próprio caráter. A cidadania está exausta.
 
No passado, as pessoas vibravam por seus candidatos. Eles percorriam as ruas e praças. Conversavam com eleitores. Realizavam comícios. Expunham-se com destemor.
 
Hoje, nos pleitos eleitorais, os candidatos são fantasmas. Escondem-se. Não apresentam suas faces verdadeiras. Transformam-se em marionetes a disposição de agentes da fantasia, os marqueteiros.
 
Houve tempo que os programas eleitorais eram ao vivo. O político tinha que se expor por inteiro. Nada de trucagem. O eleitor poderia analisar a personalidade do pleiteante a cargo eletivo.
 
Que diferença! A realidade, nas atuais campanhas eleitorais, é substituída pela fantasia. Surgem obras de primeiro mundo. Jorra água aos borbotões. A riqueza explode como uma dádiva dos senhores de plantão.
 
Tudo fantasia. A realidade brutal está presente nos hospitais desassistidos. Nas ruas esburacadas da periferia das cidades. Ou nos serviços públicos deficientes.
 
Fica de todo este quadro a indignação. O sentimento de fragilidade perante a farsa. A certeza que tudo isto leva a uma revolta interior, que poderá se transformar em situações de descontrole.
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