CANSEIRA CÍVICA


A campanha eleitoral já está em curso. As favelas estabelecidas – hoje chamadas de comunidades – passam a ser visitadas pelos candidatos. Todos se tornaram humanos e despretensiosos.

 

É uma satisfação inusitada se ver tantas gentilezas com o povo. Trata-se de antevéspera de pleito eleitoral. Um imenso cinismo envolve o ambiente. Todos se tornaram cidadãos prestantes. E idôneos.

 

A democracia perde com as campanhas eleitorais nativas. Rompem-se os liames de boa convivência. A mentira toma o lugar da verdade. A respeitabilidade é lançada ao esquecimento.

 

Há uma profunda frustração popular. Por toda a parte, a pergunta é sempre a mesma: onde vamos parar? Ninguém tem a resposta. As facções políticas exorbitaram na prática de ilícitos.

 

Isto levou a uma profunda descrença nas pessoas e, o que é pior, nas instituições. Ninguém oferece exemplo de austeridade e respeito à coisa pública.

 

As exibições de malfeitos se espalham por todos os cenários. Nos municípios, estados e na federação uma aluvião de investigações se acumulam.

 

Não há, salvo em raras ocasiões, respostas do Judiciário às ações propostas pelo Ministério Público. Os promotores e procuradores trabalham incansavelmente. As polícias investigam.

 

A resposta corriqueira: a declaração de ocorrência de prescrição. Assim, réus são liberados e acusações terminam em lamentável arquivamento. O processo penal brasileiro é agente de desmoralização da Justiça.

 

Todos estes fatos levam a uma canseira cívica sem precedentes. Um dia acreditou-se em novos lideres. Aceitaram-se novas propostas de convivência política e social.

 

O resultado se concretizou em uma imensa frustração. Agora, como nunca antes, os candidatos mostram-se pouco propensos a criar esperanças na coletividade.

 

Repetem o mesmo do mesmo. Nada de novo. Nenhuma posição inteligente e auspiciosa. Tudo é uma imensa pasmaceira. A canseira popular explode aqui e ali em manifestações espontâneas.

 

São compreensíveis e alentadoras. No entanto, apresentam a contra face. Esta se espelha no desespero dos que querem se deslocar pelas vias das cidades.

 

Não há possibilidade de deslocamento. Os custos psicológicos são imensos. Os econômicos seguem o mesmo caminho. Perde-se saúde e dinheiro, nas manifestações desarrazoadas.

 

Não há a presença da autoridade em nossas cidades. Invadem-se estabelecimentos. Ferem-se pessoas. Violam o direito de livre locomoção. As autoridades se mantêm em absoluto silêncio.

 

Não estão nem ai. Querem vencer as eleições. Com este objetivo, mostram-se inócuas e acovardadas. Triste democracia em que por um cargo público a autoridade se perde.

 

Os políticos, em campanha, deviam deixar de lado seus marqueteiros e incógnitos saírem pelas cidades e campos. Captariam a realidade social efetiva.

 

Iriam perceber que o cansaço atinge alto grau de insatisfação. A sociedade se apresenta exausta. Humilhada. Os safados superaram sua própria safadeza.

 

O civismo tornou-se cinismo.

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