A DEMOCRACIA APÓS 1964


A semana foi repleta de análises a respeito dos idos de 1964. Falou-se muito. Apresentaram-se múltiplas versões. Antigos pusilânimes tornaram-se heróis. Heróis, por natural timidez, não falaram.

 

Há muitas vertentes para se atingir o âmago daqueles dias agitados. Todos tinham razão. As muitas esquerdas desejavam a melhoria das condições de vida da sociedade. Reformas de base, já.

 

Os conservadores receavam pela anomia social. Acreditavam que, sem estabilidade, não viceja uma democracia. Temiam pela coletivização dos meios de produção.

 

Todos, pois, tinham suas parcelas de razão. Aconteceu o inevitável. Desde o advento da República, lá no longínquo 1889, as intervenções militares são recorrentes.

 

Disse Ouro Preto, ministro do Imperador Pedro II, com clarividência que a queda do Império, por um golpe de Estado, seria o advento da ditadura militar no Brasil.

 

Dito e feito. As intervenções das Forças Armadas, na vida política e administrativa do País, tornaram-se cíclicas. Sempre que os civis se dividiam em seus interesses, chamavam os militares.

 

Assim foi em 1964. A sociedade dividida viu a sua elite econômica e segmentos da política recorrer aos quartéis. Magalhães Pinto, Adhemar de Barros, Carlos Lacerda, entre outros, incentivaram o golpe de força.

 

Imaginaram que, uma vez afastados os adversários, disputariam entre si o cargo de presidente da República. Deu errado. Os comandos militares sentiram o gosto do Poder. E o preservaram por muitos anos.

 

As pressões sociais e a sensibilidade de dois militares – Golbery do Couto e Silva e Ernesto Geisel – conduziram a uma abertura democrática. Após a revogação do malfado Ato Institucional n. 5, a normalidade política foi paulatinamente se implantando.

 

Chegou-se às eleições diretas para todos os cargos eletivos. As maquinações de grupos econômicas e políticas conduziram à eleição de Collor de Mello.

 

Os militares a tudo assistiam no interior dos quartéis. Nenhuma intervenção. Os civis tornaram-se únicos depositários dos valores democráticos.

 

A frustração veio logo em seguida. A degeneração dos princípios éticos na condução dos negócios públicos. O impedimento do presidente foi processo doloroso e com fim saneador.

 

O sucessor foi uma personalidade honesta e de retidão inquestionável. Sua atuação não agradou as elites. Detestava os oropéis do cargo. Era simples por convicção.

 

Itamar Franco foi o artífice da grande mudança ocorrida na área econômico-financeira. Foi ridicularizado. Execrado pelo capitalismo tupiniquim. Manteve-se sempre com postura democrática.

 

Seu sucessor praticou o pior crime contra a cidadania: implantou a reeleição. Esta, no dizer de Barbalho, comentarista da primeira Constituição republicana, conduziria à corrupção. Acertou em cheio.

 

Agora, depois de dois mandatos do primeiro presidente operário, constata-se que os costumes políticos não se aperfeiçoaram, após tantos sacrifícios e esforços para aparelhar uma democracia.

 

Avançou-se na democracia técnica. Os meios de captação dos votos e a proclamação dos resultados se aperfeiçou, graças à urna eletrônica e ao computador.

 

Os costumes políticos, no entanto, degeneraram. A distribuição de cargos em troca de votos nos parlamentos. A indiscriminada criação de partidos políticos. A compra do voto cidadão mediante favores escusos.

 

São algumas mazelas visíveis de nossa democracia. É planta tênue. Não se esperam recaídas. Aguardam-se melhorias na qualificação de nossos políticos. Como está, gera angústia cívica.

Imprimir