ANCHIETA, O NOVO SANTO


Anuncia-se a próxima canonização do Padre José de Anchieta, considerado o Apóstolo do Brasil, como proclamado em seu funeral, no ano de 1597, pelo prelado do Rio de Janeiro.

 

Um apóstolo é figura que conta com qualidades especiais e, entre elas, a santidade, atributo próprio de Deus, segundo o ensinamento de teólogos. Desde tempos remotos, concede-se o título de santo a todo aquele que possui perfeição de vida, virtudes morais e ortodoxia doutrinal.

 

A partir do Século XIX, foram canonizados, fundamentalmente, os missionários vitimas de martírios e que testemunharam a expansão do catolicismo na África e na Ásia.

 

Anchieta, tomando-se o retrospecto de sua vida no Brasil, mostrou-se sempre abnegado na pregação de seus valores e princípios. Não titubeou perante os mais árduos obstáculos.

 

Estudioso, ele refletia com plenitude o clima europeu da época em sua obra literária. Elaborou inúmeras peças teatrais e compôs poema com mais de cinco mil versos, considerado, por seus pares, uma das grandes obras poéticas do Renascimento.

 

Todos conhecem, desde os bancos do primeiro ciclo, as inúmeras viagens de Anchieta pelo vasto e então inexplorado território brasileiro. Esteve no litoral sul de São Paulo, deslocou-se para a Baia de Guanabara e morreu aos sessenta e três anos no Espírito Santo.

 

Seu corpo foi trasladado para a Bahia, em 1609. Desconhece-se, no entanto, a localização de seus restos mortais. Desapareceram sem que os registros da época indiquem o paradeiro.

 

Anchieta era membro da Companhia de Jesus, ordem religiosa concebida após o Concílio de Trento com a finalidade de combater a Reforma Religiosa.

 

A história registra os jesuítas – aqueles que lutam por Jesus – com epítetos, por vezes, altamente favoráveis e, em outras oportunidades, profundamente negativos.

 

Foram chamados de polícia do catolicismo, granadeiros da Santa Sé, braço direito do Papa, quinta-essência do espírito católico ou, de maneira pejorativa, de precursores do anticristo.

 

A Companhia de Jesus teve grande influência por toda a América ibérica. Instalaram-se no espaço espanhol e português. Conflitaram com os colonizadores e conheceram momentos de grande depressão.

 

O Marques de Pombal expulsou os jesuítas de Portugal e suas colônias em 1767. Seis anos depois obteve a extinção da Ordem na Península Ibérica, pois, com esta finalidade, agiu diplomaticamente junto aos reis da Espanha.

 

Só muitos anos mais tarde os jesuítas, depois de se refugiarem no leste europeu, puderam ser novamente reconhecidos como ordem religiosa pelo Vaticano.

 

Anchieta, portanto, dentro do espírito da época em que aportou no Brasil, era um soldado da Igreja e da Contra-Reforma. E, certamente, com este espírito operou por toda a parte onde se encontrou.

 

Assim, não foi diferente no episódio narrado por Roberto Southey, em sua História do Brasil. Sob a epígrafe “Executa-se um protestante”, o autor narra que Anchieta, no enforcamento de João Bollés – ou Jean Du Bordel – auxiliou o carrasco na obtenção da morte do executado.

 

Mais tarde, Anchieta teria apontado para o que considerou um gesto de bondade: a sua ação indicou um ato de misericórdia. Desejou abreviar o sofrimento do herege.

 

O futuro novo santo já deu sua explicação. Quase quatrocentos anos depois do início de seu processo de canonização, a sua versão, segundo se depreende, foi aceita.

 

O Brasil terá mais um santo.

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