PASSADO REFLETIDO NO PRESENTE


Por maior esforço que uma liderança faça, durante certo período, ela não terá a capacidade alterar os traços de uma sociedade. A vida das pessoas está subordinada a condicionantes mais profundas.

Estas condicionantes se formaram durante séculos e possuem elementos muito peculiares. Podem encontrar limites, mas sempre prevalecerão na intimidade de cada integrante da coletividade.

Algumas pessoas se mostram aturdidas pelos movimentos de ruas, ora em curso por todo o País. Vão à apoplexia quando se deparam com a violência policial e a agressividade dos manifestantes.

É uma visão superficial ou – o que é mais grave – carregada de cinismo. Os últimos acontecimentos, presentes em todas as partes, nada mais são do que o retorno a uma constante na nossa vida social.

Os brasileiros, no decorrer da História, sempre conviveram com a violência. Muitas vezes dissimulada. Nunca, porém, ausente. Os coiteiros mandavam matar na calada da noite. De maneira anônima.

Quando não eram os jagunços, os integrantes da Guarda Nacional, milícia formada pelos senhores da terra, agiam em nome da autoridade e afastavam os indesejáveis da comunidade.

No Nordeste, ainda no século passado, Lampião amedrontava as populações. Colocava-se a mando de autoridades, inclusive eclesiásticas. E, quando foi preciso, combateu os adversários do governo central.

Antes, uns beatos miseráveis e com convicções religiosas e políticas profundas mereceram extermínio por forças regulares da República. Ninguém foi poupado. O sertão conheceu uma carnificina sem precedentes.

Tudo em nome da ordem. Esta mesma ordem exigiu o envio de tropas às terras de Paraná e Santa Catarina para combater caboclos que defendiam as riquezas naturais da região.

A imensa floresta de araucárias foi destruída pelos interesses estrangeiros. Exportada em toras por intermédio do porto de Buenos Aires. Os habitantes da região do Contestado foram trucidados, sem piedade.

Assim, pois, pequenos refluxos de tranqüilidade e paz superficial não indicam a verdadeira alma nacional. Há uma carga latente de agressividade nas relações entre classes sociais.

Em imensos espaços do território nacional, ainda existe a presença dos primeiros anos da colonização, quando era proclamada, sem censura, a verdadeira forma de convivência: sem rei e sem lei.

Emerge, de tempos em tempos, o inconsciente remoto da nacionalidade. Ai volta-se a viver sem rei e sem lei, tal como no presente cenário urbano das cidades brasileiras.

As autoridades deviam agir com parcimônia. As suas polícias não podem ser acionadas impulsivamente. Existe a necessidade de se elaborar uma precisa divulgação dos princípios do Estado de Direito.

A presença da lei, desde que válida para todos, é um forte lenitivo para os surtos de agressividade. Agride, aos que trabalham duramente para a sobrevivência pessoal e de seus dependentes, a petulância de determinadas figuras de nossa política e de setores economicamente expressivos.

O safado – seja jogador de futebol ou personalidade de renome político – precisa ser apontado como execrável. Recordam os tempos passados, onde quem podia mandava, quem não podia obedecia.

As sociedades podem aparentemente mudar. O entanto, os seus vetores permanecem. É exatamente o que se verifica no presente. O inconformismo social está sendo combatido com a mesma filosofia dos velhos tempos.

Não vai dar certo. Na democracia, a resposta é conferida pelas urnas. Em outubro, o eleitor vai falar. Sem jagunços ou coiteiros a espreita.

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