AMARGO REALISMO


Há internautas que, ao lerem este blog, se mostram inconformados com o grau de pessimismo exposto pelo autor. Não há pessimismo, no entanto.

Existe, sim, um realismo objetivo. Busca-se expressar o negativo dos acontecimentos diários. Basta olhar em redor e constatar a profunda decadência de nossos costumes sociais e políticos.

Perdeu-se a harmonia social. O desespero das populações das periferias de nossas cidades levou ao inevitável confronto. Neste mês de janeiro, ainda não terminado, vinte e dois coletivos foram queimados.

Centenas de barricadas foram erguidas nas principais vias públicas da cidade de São Paulo. Protestos diários são registrados nos mais diferentes pontos.

Os furtos, roubos e latrocínios se espalharam por toda a parte. As vítimas se estendem por todas as idades e segmentos sociais.

O crime tornou-se uma atividade rentável e usual. Atinge todos os níveis da sociedade. Os de colarinho branco são tratados com parcimônia nos meios de comunicação.

Quando antigos ministros são colhidos na má administração de empresas privadas – porém de capital aberto – são tratados como participantes dos altos escalões. Nada de escândalo.

Os nomes aparecem – quando surgem – no interior de grandes textos. É o cinismo de sempre. Amanhã se dirá que o fato foi noticiado. Simplesmente não mereceu ênfase. Ai o “x” da questão, repleta de muitos outros.

O pequeno acionista que se dane. Os órgãos de fiscalização – respaldados por questão de sigilo – silenciam. CVM, BNDES, Banco Central se matem altivos como uma pirâmide egípcia.

Antigo ministro é para ser protegido. Faz parte da corporação e seus integrantes contam com privilégios. É a conhecida “omertà”. São os descalabros da vida nacional.

Assim se constata que não só os políticos praticam obscenidades. O grande mundo das finanças vai direto aos pecados mortais. Até no Vaticano, sede de uma religião, a ganância esta ativa.

O banco oficial da Praça de São Pedro foi obrigado pelo Banco Central Europeu a afastar os integrantes de sua cúpula diretiva. A instituição financeira possuía fortes vínculos com a criminalidade.

É de chorar. Quando um monsenhor transporta dinheiro sujo, faltam suportes para qualquer crença na pessoa humana. Somos todos pecadores. Mesmo aqueles que querem ouvir nossos pecados.

Vai além, no inusitado, os tempos contemporâneos. Os bens pessoais – valiosos ou insignificantes – são levados pelos gatunos em toda a parte. Bicicletas, automóveis, celulares e o que mais vier.

Uma orgia desenfreada de violência física e moral. O descalabro chegou a ao limite. O individuo é furtado. Para reaver seu bem, se torna receptor. Paga ao ladrão para devolver o que foi surrupiado.

A série de horrores é infinita. Vai, pois, do desgarçamento do tecido social ao envolvimento de pessoas – consideradas idôneas – nas mais diversas falcatruas.

Ora, com este panorama ninguém pode se apresentar com traços de otimismo. A realidade é amarga demais para ser recebida com cores efusivas.

Caminhamos – se não surgir uma onda de vigoramento moral – para o caos. Não existe pessimismo nesta previsão. Basta acompanhar os acontecimentos sem qualquer facciosismo.

Nada é veraz, salvo a bandidagem em todos os segmentos. Do traficante de crack ao prelado, passando pelos antigos ministros, as decepções vão se acumulando.

Não dá para ser otimista.

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