A FALSA CORDIALIDADE


As cenas da Penitenciária de Pedrinhas, registradas pelos meios de comunicação, refletem todo o passado do País. A nossa História é repleta de violência e desrespeito à pessoa humana.

As elites sempre procuram maquiar esta realidade de dor e sofrimento. Escreveram obras, festejadas em pequenos grupos da minoria branca, elaborando uma falsa cordialidade ou bondade.

Tomaram as descrições dos viajantes, durante o período colonial, e apontam para o bom acolhimento recebido pelos forasteiros nas sedes das fazendas.

Esqueceram de apontar dois elementos: os viajantes eram europeus e os fazendeiros pessoas rudes que se encantavam com o mundo lá de fora.

Não recebiam na casa grande qualquer um. Só os que apresentavam ares de sofisticação. Era bom entrar em contato com um mundo sonhado, mas distante e quase inalcançável.

A lenda da bondade ou cordialidade do brasileiro forjou-se nas casas urbanas dos bem nascidos. Foram capazes de afirmar que a miscigenação, originária da dominação, foi um traço positivo do caráter nacional.

O cinismo dominou nossos espaços visuais. O que é bom a gente conta, o que é mal a gente esconde. Este o mote predileto de nossa imprensa durante séculos.

Os bailes da Corte, os palacetes de Santa Tereza, as mansões da Avenida Paulista, assim como os palácios da plutocracia açucareira, não podiam sofrer o impacto da verdade.

A mentira é um componente de nossa realidade. Sempre se matou – e muito – no extenso território brasileiro. Desde os tempos da descoberta, a violência não sofre soluções de continuidade.

As elites, no entanto, procuraram sempre se proteger física e psicologicamente. Os seus capangas davam a necessária segurança. As boas notícias estampadas nos noticiários a tranqüilidade mental.

Quando Palmares ruiu, graças às agressões dos senhores de engenho, as orelhas dos vencidos foram cortadas para posterior exibição. Uma demonstração da cordialidade e bondade do caráter nacional.

Ao serem exterminados, os componentes do bando de Lampião tiveram suas cabeças cortadas. Primeiramente, exibidas em Piranhas e, depois, em Salvador.

Em Canudos, molambentos, armados com armas ronceiras, foram exterminados – sem dó nem piedade – por tropas de artilharia, como o sertão nunca antes tinha visto. E jamais voltou a ver.

Foi vitória da República, esta, fruto de um golpe de estado que deu início a longa série de intervenções armadas em nossa vida política. Os golpes, após 1889, tornaram-se rotina.

A elite sempre aplaudiu. Jamais se preocupou com as conseqüências desta carnificina interminável. Fecha os olhos para a realidade. Adora, nos dias presentes, ir a qualquer parte dos Estados Unidos.

Ora, tudo isto aponta para o inexorável. As rebeliões em nossos presídios, verdadeiras masmorras medievais, são inevitáveis. Os administradores públicos, como os extratos de suas origens, preferem fechar os olhos.

Sabem que elas são transitórias. Passam. E, com o passar do tempo, vem o esquecimento. É a falsa paz entre rebeliões. Foi assim em São Paulo. Será assim no Maranhão

Até lá – a próxima rebelião – se continuará a entoar a mantra perene: o brasileiro é cordial e pleno de bondade. Assim é se lhe parece. O bom seria uma tomada de coletiva de consciência da realidade.

Caso contrário, em futuro não distante, o caos se instalará em nossas cidades. Já aconteceram surtos em passado recente. É só lembrar 2006. Não se encontram tão distantes aqueles dias de angustia e desespero.

Só as autoridades não querem perceber. O cinismo de sempre foi substituído – em véspera de eleição – pela propaganda oficial enganosa.

Imprimir